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Adoção de tecnologia pelos escritórios jurídicos: entrevista com Prof. Alexandre Pacheco

Quais as três áreas do Direito serão mais transformadas nos próximos 5 anos? Como o nível de senioridade do advogados afetam sua propensão de adotar novas tecnologias? Sócios são mais refratários às novas ferramentas que advogados juniors ou seniors? 

Conversamos com Alexandre Pacheco, professor da Escola de Direito da FGV de São Paulo, bacharel e mestre em Direito pela mesma instituição e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP. Alexandre Pacheco também coordena o grupo de Pesquisa, Ensino, Inovação e Direito. 

Alexandre nos explicou a racionalidade por trás da adoção de novas tecnologias nos escritórios e como fatores culturais da profissão pode afetar essa lógica. De acordo com Alexandre, a tecnologia deve acelerar a tendência dos escritórios se enxergarem mais como unidades produtivas. Para ele, a inovação pode ajudar a reestruturar a atividade jurídica e levar à conclusão que dá para fazer mais com menos e com maior qualidade.

Leia a entrevista completa abaixo!

Três áreas do direito que serão totalmente diferente em cinco anos.

Danilo Limoeiro (DL): Alexandre, as novas tecnologias digitais estão mudando profundamente o Direito, você poderia citar para a gente três áreas do Direito que serão completamente diferentes daqui a cinco anos? 

Alexandre Pacheco (AP): Posso citar sim. Eu acho que é interessante contrapor o que vem sendo muito falado enquanto transformação, mas que na minha visão não é uma transformação tão profunda e o que a gente começa a perceber como algumas tendências que aí sim você vai mudar a forma como o profissional da área jurídica vai ser demandado dentro de organizações, departamentos jurídicos e escritórios de advocacia, e como é que o serviço jurídico será entregue na ponta.

O que eu quero dizer com isso? Quando a gente pensa muito sobre tecnologia no campo jurídico, a gente ouve muito falar de automação. E a automação, do ponto de vista tecnológico, não é uma novidade para vários setores. E muitas vezes se baseia na ideia de que você já tinha graus de automação de atividades, como por exemplo o uso de modelos, templates e o que você faz foi dar uma camada de software para economizar tempo. Mas, na prática, isso não muda drasticamente ou profundamente o que o profissional da área jurídica nessa organização faz.

Isso, na verdade, aumenta a produtividade do trabalho que ele realiza dentro dessa organização. Então, o que se fazia com duas, três, quatro, cinco horas, agora se faz em menos tempo, se faz em uma hora ou em alguns minutos.

O que a gente começa a perceber que, aí sim a gente está olhando para um movimento de transformação profunda? Quando a gente começa a inserir ali para além de uma camada de software, é a construção de informações novas que podem ajudar a atuação do advogado. Isso é muito interessante a gente notar que nasce da ideia de que o Direito vem se digitalizando ao longo dos últimos anos. O que, de um lado é muito interessante. Por quê? Gera matéria prima para você gerar informação nova. Então, decisões digitalizadas, hoje, a disponibilização de uma infraestrutura tecnológica, seja de acesso à internet ou até mesmo melhoras de bases de dados ou plataformas de tribunais que fazem como, por exemplo, serviços que anteriormente não seriam sequer possíveis pelo momento tecnológico que a gente vivia, passam a, hoje, serem protótipos ou possibilidades para a gente trabalhar.

Primeira: análise de riscos, da intuição para a matematização.

A primeira delas é a ideia de que o que se pensava de análise de risco no passado, que era eu olhar, com base na minha experiência, dentro do mercado profissional, dentro da minha trajetória de carreira e ler decisões e avaliar essas decisões com base na minha experiência e dizer, por exemplo, como na [prática]  tributária é muito comum, se existe uma possibilidade de perda daquela demanda judicial possível, remota ou provável.

Agora a gente passa por um processo de matematização disso, então, ao invés de ser um processo que se baseia na minha percepção, que é uma percepção que se lastreia na ideia de que eu tenho experiência, tempo de rodagem e, em alguma medida já vi casos parecidos com esse, mas agora eu consigo dar um grau de objetividade à essa avaliação que isso transforma o que eu estou entregando na ponta. E aí você já começa a ter a possibilidade de realizar cálculos matemáticos sobre possibilidade ou não, probabilidade ou não daquela demanda ser uma demanda que vai me exigir contingenciar recursos em um curto prazo ou postergar um eventual contingenciamento de recursos para o futuro. Isso é uma mudança drástica que, quer dizer, como é que eu faço a análise de risco no campo jurídico pensando que novas tecnologias podem nos ajudar a matematizar a forma como a gente avalia processos judiciais.

DL: Nesse caso seria, então, a estatística complementando a intuição do profissional?

AP: Eu diria que sim. Em um primeiro momento a gente falaria em estatística, depois falaríamos em, vamos dizer assim, para além da estatística, que seria a base, avaliações sofisticadas de aprendizado de máquinas ou de aplicações de aprendizado de máquina. Porque uma etapa posterior é não controlar previamente o meu universo, mas deixar por exemplo, com que o meu algoritmo possa não só coletar informação, mas classificá-la de uma maneira mais livre para dizer que fatores são fatores determinantes.

Enquanto em um caso, quando vou aplicar técnicas estatísticas para matematizar esse processo de avaliação de risco, de análise de risco, estou criando conjuntos de variáveis aos quais eu vou utilizar. O que já é um grande avanço quando a gente olha para a análise de risco atual. Podemos pensar que um segundo passo é como a gente traz isso para, ao invés de pré-estabelecer as variáveis, eu deixarei com que a máquina consiga estabelecer que variáveis serão relevantes para esse caso concreto.

Segunda: Estratégia de contencioso, do argumento jurídico a análise de dados.

Uma segunda tendência, que eu acho que é uma tendência interessantíssima, é uma tendência de você olhar, por exemplo, para decisões judiciais e, para além do argumento jurídico, entender que dados podem ser relevantes para montar uma estratégia. Um exemplo característico: hoje a gente vê empresas que trabalham com largos volumes dados para em alguma medida criar um diagnóstico de um tribunal, de uma vara, para quê? Para dizer: “Puxa, de todos os processos que chegam nessa vara, quais são relacionados a áreas como consumidor? Quais são áreas, por exemplo, relacionadas a contratos? E, como esse magistrado ou o conjunto de magistrados vêm decidindo? Qual é a média de aplicação de multas? E, quando a gente olha, por exemplo, o conjunto de tribunais brasileiros, a gente começa, com esses dados agregados e unificados em uma plataforma só, começar a criar novas categorias de informação que podem me ajudar na estratégia pela qual eu vou, por exemplo, enfrentar um litígio.

O que eu quero dizer com isso? Uma das coisas que algumas empresas começaram a desenvolver é a ideia de: eu pego todos os dados de um tribunal, pego todos os dados relacionados a uma empresa e vejo quais são os processos que foram propostos frente à essa empresa? Contra essa empresa? E verifico uma coisa: será que eu tenho algum advogado ou uma advogada que são litigantes, contumazes ou, como algumas empresas começaram a chamar, “advogados agressores”, essa é uma informação que antigamente era fruto da percepção.

Quando eu tinha esses dashboards de informação, por exemplo, eu tinha um primeiro esforço, que era montar o dashboard e o segundo é: que informação nova, ao agregar estes dados que estão presentes ali e visualmente apresentados para mim de maneira fácil e de uma compreensão imediata, que informação nova eu consigo criar, por exemplo, uma categoria de advogado agressor? Por que isso muda como um departamento jurídico funciona? Porque o departamento jurídico agora terá um indicador. Para quê? Para dizer: “Advogados agressores, o tratamento é um” por exemplo, eu não negocio porque eu quero ter um efeito simbólico de desestimular com que novos negócios sejam criados com base apenas na agressão a uma empresa. Então, eu vou contingenciar recursos, e muitas vezes eu vou pagar mais que o processo me custa porque eu quero gerar este efeito simbólico.

Para os demais, eu crio um fluxo voltado apenas para negociação, técnicas alternativas por meio de ação, conciliação e outras, para dizer; “Puxa, se você tem demandas pontuais frente à mim, eu vou trabalhar com você em técnicas alternativas, trazer a valor presente custo de um processo e tentar organizar minha vida dessa maneira”. No advogado agressor, que é uma categoria nova, fruto desses grandes volumes de dados, eu vou fazer uma atuação específica, que é uma atuação de dissuasão.

Terceira: Predição judicial,  nova lógica para o contencioso.

E, por fim, talvez uma terceira tendência, que essa eu particularmente acho muito interessante, mas a gente ainda está em um estágio bastante inicial, que é a ideia de predição com base na criação de perfis de magistrados. E eu vou dizer de magistrados, mas a gente poderia fazer predições com base em perfis de árbitros ou de qualquer um que se coloca em uma posição de decisão na esfera administrativa judicial.

Por que eu digo que nós estamos em um momento inicial ou engatinhando? Em primeiro lugar, porque a gente precisa de uma massa de dados significativa e por vezes, para alguns temas, a gente não tem, e outra é a gente ainda patina um pouco para identificar o que que significa criar um perfil do decisor, do magistrado, de modo a me garantir uma acurácia, uma precisão que a minha predição, que seja um sim ou não em relação a um argumento, estará minimamente correta ou terá uma taxa de erro muito baixa, aceitável para que eu possa passar essa informação para frente como um produto ou um serviço a ser prestado pelo meu escritório. Quer dizer, chegar uma demanda e eu dizer: “Puxa, com esse magistrado eu tenho oitenta e nove por cento de chance de ele não aceitar esse argumento. Portanto, não vamos investir recursos para fazer valer esse argumento porque eu acho que, na prática, não vale a pena porque esse magistrado, por exemplo, não aceitará”.

E aí, você começa a estabelecer uma nova lógica estratégica. Por exemplo, você começa a poder fazer cálculos de quanto vai custar a trajetória de um processo, de uma demanda, por quê? Se eu sei que a maioria dos atuais ministros do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça concordam com a minha tese e eu tenho uma acurácia grande em relação à essa predição eu consigo, mesmo com derrotas pontuais em primeira e segunda instância, tentar entender o quanto será o custo da minha espera. E ponderar estrategicamente, com base nessa predição, como é que eu organizo o meu negócio para revelar um preço que não é um chute, mas é efetivamente uma fórmula de precificação, que até então é um pouco estranho para escritórios de advocacia.

Aliás, um sócio de um grande escritório de advocacia aqui de São Paulo uma vez me disse, quando eu perguntei como ele precifica. Ele falou: “Olha, é muito uma questão de sensibilidade. Você, com base no histórico e com base, um pouco, em uma conversa que você tem com escritórios do mesmo porte, você estabelece um preço e vai calibrando na medida em que você recebe um feedback, uma resposta do cliente dizendo: “Está muito caro”, “Está muito barato”. Então, é muito mais uma questão de tentativa e erro a precificação do que a ideia de que você, como outros segmentos de mercado, precifica com base em uma fórmula. Eu tendo a dizer que as novas tecnologias e o impacto que elas estão gerando e vão gerar para escritórios de advocacia tornarão alguns hábitos que fundamentalmente são de tentativa e erro, atos que terão que se basear em fórmulas, em planejamento e em gestão.

Como os profissionais da área podem se preparar para essa transformação?

DL: Então estamos falando de a tecnologia trazendo a precisão muito maior para a atuação do advogado, certo? Como que os profissionais que estão no mercado hoje podem se preparar para essas transformações?

AP: Essa é uma pergunta que eu acho que não apenas a Fundação Getúlio Vargas, mas várias outras instituições de ensino têm ali feito. Parte do que a gente têm tentado fazer é identificar, por exemplo, qual é a medida correta, quando eu digo correta, ou qual é a medida necessária de conhecimento técnico ou de conhecimento de outras áreas que serão necessárias para um profissional da área jurídica poder se inserir em um contexto que têm características muito específicas? O que eu digo de características muito específicas?

Acho que a primeira reflexão que a gente tem que fazer é o seguinte: um profissional da área jurídica, se ele não for bom na área jurídica, se ele não dominar técnicas de interpretação, se ele não dominar o texto da norma, se ele não dominar como ler e interpretar decisões judiciais, esse é um profissional da área jurídica que não cumpre a descrição mínima do que esse profissional tem que entregar na ponta, do que esse profissional pode, a forma como esse profissional lerá a realidade, conseguirá interpretar os fatos da realidade dentro da profissão dele.

Para além do conhecimento jurídico

Agora, uma coisa que a gente se pergunta é o seguinte: ele sendo bom na área jurídica, que outra habilidade que ele vai precisar? E quando a gente pensa que outra habilidade é: ele vai precisar entregar o que, por exemplo, um cientista da computação, um engenheiro, um linguista, um biólogo entregam na ponta? Não. Na prática, você não vai contratar um advogado ou uma equipe jurídica, seja em uma consultoria, seja em um escritório, porque ele te entregará o que um cientista da computação te entregaria.

Agora, o que a gente começa a perceber é que as organizações têm se tornado cada vez mais multidisciplinares. Por quê? Eu não consigo mais pensar, por exemplo, hoje, campos do Direito como proteção de dados, segurança da informação, que é um campo da Ciência da Computação que vêm migrando por questões envolvendo vazamento de dados e outros tantos para além da área jurídica.

Eu não tenho como entregar a prestação de um serviço jurídico olhando apenas para o que a norma diz, apenas para o que as decisões judiciais dirão. Eu tenho conceitos que vêm de outras áreas e tenho, querendo ou não, a necessidade de não só incorporar o que o termo significa, mas como uma tecnologia funciona.

Tech Literacy e o futuro do Direito

Isso é o que vem sendo chamado de “Tech Literacy”. Qual é a ideia do tech literacy? Essa ideia de que eu preciso ter uma familiaridade com o vocabulário tecnológico, com o funcionamento de determinadas tecnologias, seja no âmbito de tecnologia da informação ou na biotecnologia, o funcionamento de organismos vivos e interações entre microrganismos por que na prática, o que eu estou fazendo é: eu só vou conseguir interpretar uma norma que tenham esses elementos, que tenham esse vocabulário, que façam referência à essas tecnologias se seu entender: 1) o que essas palavras significam para a outra área; 2) como essas tecnologias funcionam na prática e como elas foram aplicadas por meio de interações sociais, seja em um modelo de negócio, seja por meio de uma disputa política, seja, por exemplo, em uma dinâmica social como a gente começa a observar dinâmicas sociais em redes sociais.

Se eu não tiver esse conhecimento básico, eu não vou conseguir ser parte de uma equipe multidisciplinar em que eu vou precisar conversar com esses profissionais de outras áreas.

Advogados precisarão programar?

Então, uma pergunta que me fazem com muita frequência: “Advogados precisarão programar?” Eu diria que advogado não vai precisar programar como a entrega da contribuição dele para um projeto, por exemplo, que tem um componente jurídico, mas, ele vai precisar: 1) entender o que as outras pessoas dentro dessa equipe multidisciplinar estão falando para que ele possa dizer: “o Direito entra aqui. E o que eu vou entregar para vocês é isso e o que eu não posso entregar para vocês é aquilo”. Quando eu digo isso, eu digo muito, por exemplo, em um ambiente empresarial na ideia de que, cada vez mais, a concepção de produtos vai, necessariamente, ter que incorporar valores e regras jurídicas do ponto de vista do desenho do produto ou do desenho do serviço.

Se eu vou criar um algoritmo de aprendizagem que hoje será oferecido na ponta para o meu cliente, eu terei que incorporar a ideia de que dentro desse tipo de algoritmo eu terei que verificar até que ponto, se ele está trabalhando com processamento de linguagem natural, ele terá riscos de usar um termo culturalmente sensível, socialmente sensível. 

E, para isso, uma das coisas que começa a se perceber é que o papel do advogado é o de curadoria de dados. Só que, e se ele não souber o que é um banco de dados? Se ele não souber, por exemplo, como é que as relações são construídas para fins de entrega de uma resposta de um algoritmo, se ele não entender como esse processo funciona, ele não vai conseguir realizar a curadoria de dados.

E a curadoria de dados nada mais é do que: “Vamos realizar um conjunto de teste para verificar o grau de risco ao qual estamos inseridos, se a gente botar esse produto no mercado?” Para isso ele tem que entender o que um algoritmo. Por exemplo, ele não é um algoritmo que eu não preciso entender tecnicamente como ele funciona. Ele tem que entender como esse algoritmo vai se inserir nesse contexto muito específico.

E, para terminar essa ideia, uma das coisas que a gente percebe é, respondendo à pergunta: “Advogados precisam programar? Advogados terão que ter conhecimentos de Engenharia?” Sim. Agora, eles não entregarão o que um cientista da computação entregaria e o que um engenheiro entregaria, eles vão, sim, dialogar com essas pessoas. Por quê? Cada vez mais o que a gente precisa é que profissionais de áreas diferentes se abram para se comunicar porque o mundo em que vivemos é complexo o suficiente para que você não possa mais responder apenas a partir da sua área.

‘Tech Literacy’ e nível de senioridade. 

DL: Alexandre, às vezes o profissional que é um pouco mais sênior da área pode ter uma tendência a se ver mais imune ao que a necessidade do que você chamou de ter “tech literacy”. Esse conceito seria mais apropriado para quem está entrando no mercado agora? Ou não, não teria nenhuma variação na necessidade de o profissional do Direito entender de tecnologia, capturar esse vocabulário e conseguir consumir tecnologia?

AP: Essa é uma ótima pergunta e uma pergunta que eu dividiria em, no mínimo, três frentes.

Quando eu penso em dividir essa pergunta em três frentes, eu tenho a primeira resposta que eu posso dar à essa pergunta, que é a ideia de: Puxa, quando a gente olha organizações jurídicas, mais especificamente escritórios de advocacia, o modelo tradicional dos escritórios de advocacia é o modelo de pirâmide, em que você tem os profissionais que já tiveram uma longa e muito bem sucedida trajetória no escritório, que estão na ponta da pirâmide com maior remuneração, com uma maior responsabilidade frente à entrega dos serviços, com preocupações de qualidade mas com a ideia de que: Se eu estou na ponta da pirâmide, eu terei um prazo de vida útil para ainda trabalhar nessa organização menor do que a gente imagina as pessoas que estão na base ou estão no meio da pirâmide.’

Então, nesse sentido, um incentivo que essa pessoa têm é e principalmente escritórios de advocacia que a lógica é: “Tudo que a gente tiver de lucro, tudo que a gente tiver de sobra dos custos que a gente teve e do que a gente recebeu enquanto receita, será redistribuído, porque aqui, escritório de advocacia como sociedade de pessoas, a ideia é: eu vou redistribuir todo o resultado que eu conseguir gerar entre a proporção de custos e receita“.

 Então, nesse sentido, um profissional que está no topo da cadeia tem poucos incentivos para dizer: “Por que que eu não  vou explorar o máximo que eu puder para ter o máximo de resultado, tendo em vista que o meu período aqui no escritório é curto, seja um ciclo de cinco a dez anos, por quê? Se eu usar esses recursos que poderiam vir para mim, para investir em um escritório, investir em tecnologia para o escritório, que trarão frutos lá na frente, quando eu não estiver, na prática o que eu estou fazendo é agir contra o meu interesse individual“. Essa é uma das potenciais respostas, que é uma potencial resposta oportunista. Mas, não dá para a gente fugir dela, por quê?

Se a gente imaginar uma atuação racional de alguém que está na ponta da pirâmide, eu acho que é uma atuação racional. Quer dizer, eu tenho um período de tempo curto para aproveitar aqui, por que que eu vou aprovar decisões de investir em tecnologia sem ter um resultado que eu consiga antecipar, ver no curto prazo, se eu posso aqui incentivar a redistribuição para que eu tenha um resultado no curto prazo? Então, a primeira lógica é: existem incentivos de curto prazo para que sócios, não vamos dizer assim apenas neguem, mas também não queiram investir em tecnologia por mais que eles comecem ali a entender a relevância disso. Vamos supor que este cálculo oportunista esteja fora, vamos dizer assim, do nosso horizonte.

 Vamos pensar uma segunda potencial resposta para essa conversa. Bom, existe uma resposta tradicional que é a ideia de: “Puxa, como eu construí a minha carreira? Eu construí a minha carreira com base na qualidade técnica da entrega do meu serviço jurídico, com base na reputação que eu construí e com base na forma como eu vislumbrei que escritórios se organizam no Brasil e fora. E eu estou em um momento em que o escritório continua gerando receita, os profissionais da área jurídica continuam entregando e reforçando a reputação do escritório e eu começo a perceber que muito dos resultados que a gente olha, do ponto de vista daqueles que se inserem em um ambiente mais intensivo em tecnologia são resultados que não me convencem porque ainda não estão nos gerando lucros extraordinários. Estão nos gerando ganhos de produtividade, estamos melhorando, mas não existe nada ali que tenha mudado brutalmente a dinâmica dos escritórios.”

Então, nesse sentido, uma das questões que a gente percebe em escritórios de advocacia e sócios da ponta é: “Puxa, vale a pena aguardar”. 

E vale a pena aguardar como um frase que um outro sócio de escritório e esse eu posso falar porque ele falou em um evento aberto aqui, o próprio [NOME SUPRIMIDO], que há três anos veio aqui, CEO do [NOME DO ESCRITÓRIO SUPRIMIDO], à época, ele falou: “Escritórios de grande porte tem uma vantagem, principalmente na cidade de São Paulo e em grandes cidades do Brasil, o faturamento deles permite que, se eles precisarem investir fortemente porque estão sentindo que a mudança tem acontecido de maneira mais profunda, eles terão uma agilidade maior porque eles têm a possibilidade de mover esses recursos em grande monta, em direção à tecnologia”.

O que, por exemplo, se investe em marca, se investe, por exemplo, na contratação de novos associados, rapidamente eles podem começar a fazer testes e colocar à disposição esses recursos para tecnologia. Então, você tem um comportamento, principalmente para os grandes escritórios de dizer: “Olha, vamos esperar”.

Escritórios advocatícios são unidades produtivas?

E uma terceira vertente, e ainda é uma terceira vertente que eu, particularmente, ouvi de alguns advogados. Existe uma questão importante, que é uma questão do ponto de vista cultural de como se enxerga um escritório de advocacia. Não o que ele é, mas o que se enxerga dele.

Boa parte do que se imagina de um escritório de advocacia é a ideia da sociedade de pessoas e a ideia que tudo que está em torno do escritório de advocacia é um serviço de suporte e o que se vende são os profissionais que estão dentro do escritório de advocacia. Entende-se por serviço, mas não se entende muito como unidade produtiva que consegue formatar o serviço jurídico como um produto.

E aí, nesse sentido, uma das coisas que a gente começa a perceber é: por mais que escritórios se comportem como tal, quando você pergunta para eles ou apresenta para eles esse mapa, você começa a perceber que existe um descolamento entre o “como eu atuo” de “como eu recebo novas ideias”. E aí você começa a ter uma barreira cultural principalmente porque quando você fala de sócios no, vamos dizer assim, no topo da pirâmide, uma das questões que é inevitável para esses sócios é o seguinte: “Puxa, mas o escritório de advocacia não deve ser essa unidade produtiva. O escritório de advocacia não deve ter esse contorno”.

Um fenômeno brasileiro

Isso eu digo em um fenômeno muito brasileiro e de alguns outros países, que, por exemplo, eu acabei de voltar da Austrália, passando um tempo ali como professor visitante na Universidade de New South Wales e uma das coisas que os professores da Universidade de New South Wales que estão estudando o futuro da profissão me apresentaram é: o mercado, por exemplo, jurídico australiano, a primeira coisa é que escritório de advocacia pode receber investimento de não-advogados, não-advogados podem ser sócios. E, mais do que não-advogados podem ser sócios, uma das coisas que se discute muito é: o escritório de advocacia não é um negócio. Um escritório de advocacia tem profissionais que estão sendo pagos para entregar o seu trabalho.

Ele não tem este grau de autonomia que se vislumbra romanticamente, que no Brasil você vai dizer: “Eu sou um profissional liberal. Eu vou ter o meu entendimento próprio sobre algumas demandas que o escritório vai cuidar”. Via de regra, quando você está em uma estrutura hierárquica de um escritório de advocacia em São Paulo, você não tem esse grau de autonomia já hoje.

Agora, quando você fala sobre a profissão, mesmo esses profissionais que estão no topo da cadeia, muitas vezes se fala de uma maneira romântica em que todos os níveis do escritório de advocacia teriam este grau de autonomia, o que, do ponto de vista organizacional e do ponto de vista do fluxo de trabalho ou das rotinas de trabalho, não é uma realidade mais.

E quando a gente começa a trazer a tecnologia para reimaginar esse trabalho, uma barreira que eu sinto de maneira muito característica é essa ideia que a tecnologia escancara uma realidade que por vezes a gente não quer demonstrar quando a gente vai apresentar como a gente trabalha, quais são as rotinas de um escritório de advocacia.

E, nesse sentido, é quase que um processo de transição a gente digerir que a gente já não é mais aquela imagem do passado do advogado como artesão, mas que as organizações hoje, principalmente escritórios de advocacia e grandes capitais, já são unidades produtivas. 

E são unidades produtivas por meio de uma organização hierárquica no formato de pirâmide, que se preocupam com lucro, trajetória de carreira, tem plano de carreira, tem setor de RH, tem setor financeiro, se preocupa com produtividade, articula bônus com base em horas trabalhadas. É uma unidade produtiva do ponto de vista tradicional da administração.

DL: E a tecnologia só faria então o escritório parecer cada vez mais com uma empresa?

AP: Basicamente, o que a gente começa a perceber é que a tecnologia escancara uma realidade que a tempos a gente não quer admitir.

E, no final das contas, a gente finge que ela não existe, seja do ponto de vista da regulação, olhando ali a atuação da Ordem dos Advogados do Brasil que tem como função, eu acho muito interessante que tenha, proteger aquele que vai tomar o serviço jurídico, que vai receber o serviço jurídico, que é o cidadão comum.

Então, querendo ou não, regular a profissão é importante para garantirmos o mínimo de qualidade, mas, ainda tratar escritórios de advocacia como sociedade de pessoas olhando para a realidade de grandes capitais e olhando para escritórios de médio, grande porte e até butiques de pequeno porte, esses altamente especializados, a gente percebe que técnicas de gestão, técnicas de planejamento e, querendo ou não, organização institucional estão presentes como definidor do sucesso ou do fracasso dessas organizações.

E a tecnologia entra, por quê? Melhora a produtividade, começa a reestruturar a atividade jurídica e, no final das contas, começa a dizer: “Dá para fazer mais com menos e com maior qualidade”.

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OCDE e preços de transferência no Brasil

O Governo Federal tem tentando acelerar a entrada do Brasil na OCDE. A eventual entrada no clube dos países ricos implicará uma transição do regime atual de preços de transferência, baseado em margens fixas, para a adoção do chamado ‘Arms Length Principle’ (ALP). Quais a vantagens e desvantagens do regime atual? A adoção do ALP torna o sistema mais confuso? Quais setores da economia seriam mais afetados durante essa transição? A Turivius conversou com Luiz Felipe Ferraz e Rafhael Romero Bentos, do Mattos Filho Advogados, que recentemente publicaram artigo sobre o assunto, e responderam essas e outras questões.

O sistema vigente no país de preços de transferência, de margens fixas, só é adotado pelo Brasil e pelo Cazaquistão. Por um lado, ele é simples e previsível, tem baixo custo de administração tanto para contribuintes quanto para o Fisco. Por outro lado, ele eleva o risco de dupla não tributação e não abrange corretamente os bens intangíveis. Ademais, essa simplicidade é apenas aparente. Por ser uma exceção entre os modelos internacionais, o sistema de margens fixas é uma ‘jabuticaba’ para empresas estrangeiras acostumadas com o ALP.

Já no ALP, o princípio norteador é que a empresa deveria tratar suas transações internas da mesma forma que as com terceiros. Ou seja, a empresa deve procurar aplicar parâmetros de mercados para as suas transações internas. Sua principal vantagem é que esse é o modelo-padrão recomendado pela OCDE, ou seja, as empresas têm uma familiaridade maior. Por outro lado, dependendo da complexidade da operação, pode ser bastante complexo encontrar parâmetros equivalentes no mercado.

A possível entrada do Brasil na OCDE acelerará a adoção do ALP. Esse movimento é positivo por colocar o Brasil mais próximo da prática internacional. Ou seja, uma jabuticaba a menos. Por outro lado, a adoção do ALP, sem um  sistema mais prático de solução de controvérsias, pode ter como consequência aumentar o volume de contenciosos entre Fisco e as empresas. Dada sua complexidade maior, as controvérsias sobre a conformidade de operações específicas podem receber mais questionamento. Ademais, alguns setores econômicos podem ter uma dificuldade maior de se adaptar ao novo regime, visto que estavam já acostumado com as margens fixas.

Confira no vídeo acima a entrevista completa e entenda os detalhes dessa discussão.

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Advocacia do futuro Direito e Tecnologia Direito Tributário

Conheça o Vision – Inteligência Artificial Tributária

Luis Guilherme precisava encontrar uma série de precedentes  que sustentassem seu caso sobre sobre exclusão de ICMS na conta de luz. Ele precisava de precedentes fortes, com decisões favoráveis ao contribuinte.

Em sistemas de busca tradicionais, Luis Guilherme inseriria palavras-chaves e receberia como resposta centenas, as vezes até milhares, de precedentes relacionados a essas palavras-chaves. Pressionado com prazos e trabalhando em diferentes processos ao mesmo tempo, Luis Guilherme não terá tempo para buscar exatamente os precedentes que sustentam uma decisão pró-contribuinte no seu caso. 

Agora imagine um sistema de pesquisa jurisprudencial que encontrasse os milhares de casos sobre aquele tema, mas com um detalhe: Luis Guilherme poderia filtrar e visualizar apenas decisões favoráveis ao contribuinte, aprovadas por unanimidade pela turma e relatados por um juiz específico. De repente, os milhares de casos se reduzem a poucas dúzias, o que torna o trabalho muito mais factível e Luis Guilherme tem uma capacidade muito maior analisar a jurisprudência do tema e aumentar as chances de ganhar o caso para o seu cliente. 

Esse sistema pode fazer ainda mais. Ele também informa a proporção de julgados pró-contribuinte e pró-fisco daquele juiz específico. Luis Guilherme agora tem não apenas uma capacidade de avaliar a jurisprudência relevante com muito mais eficiência como também a capacidade de entender a cabeça do juiz que avaliará seu pedido com muito mais precisão e assertividade. Um ganho de eficiência e de qualidade no seu trabalho com a mesma ferramenta. 

Esse sistema integrando pesquisa inteligente e jurimetria é possível. Ele precisa de inteligência artificial para alimentá-lo. 

E essa tecnologia já existe e está disponível no Brasil. Continue lendo para entender.  

Direito e inteligência artificial

O Direito não é uma ciência exata. Mas Ciências Exatas, como a Estatística e Computação, têm muito a contribuir com o Direito. Ainda estamos longe de criar robôs-advogados construídos usando inteligência artificial. De acordo com este estudo de pesquisadores do MIT e da Universidade da Carolina do Norte, a tecnologia atual consegue substituir apenas 10% das atividades de um advogado. 

No entanto, já existem várias aplicações muito mais simples de inteligência artificial que geram eficiência e análises mais precisas para os serviços jurídicos. E essa é contribuição principal da inteligência artificial jurídica atualmente. 

São várias as solucões de aplicação da inteligência artificial para, por exemplo, jurimetria ou revisão de contratos ou pesquisa jurisprudencial. Essas ferramentas ‘AI-powered’ serão cada vez mais frequentes na prática jurídica. Com o tempo eles farão parte da rotina de escritórios e departamentos jurídicos de empresas. 

Vision: aplicação da inteligência artificial ao direito tributário 

É nesse contexto que criamos o Vision, o primeiro robô de inteligência artificial tributária da Turivius. O que o Vision faz é muito simples: ele classifica se um acórdão foi conhecido por uma turma, se seu resultado foi favorável – parcial ou integralmente –  ao contribuinte ou ao Fisco e se a decisão foi unânime ou por maioria. 

Simples, não? Estamos certos que qualquer estagiário em seu primeiro mês poderia fazer o mesmo. 

No entanto, o que faz o Vision especial é a velocidade com que ele faz esse classificação. O Vision pode classificar centenas de milhares de acórdãos em segundos. 

Essa velocidade é inatingível para qualquer ser humano, inclusive o seu super-estagiário. Esse é o principal diferencial das ferramentas de inteligência artificial jurídica no estágio atual da tecnologia: executar tarefas simples mas com velocidades impensáveis para seres humanos

Com essa velocidade, o Vision consegue classificar toda a base de acórdãos tributários da Turivius (mais de um milhão, cobrindo Judiciário e conselhos administrativos) em questão de minutos. Uma tarefa dessa para seres humanos demoraria meses. 

Aplicações comerciais

Esse nível de eficiência gera duas aplicações principais para os nossos usuários. 

Primeiro, as classificações do Vision alimentarão o sistema de jurimetria integrada da Turivius. Com essas classificações, geraremos gráficos e estatísticas que mostram, por exemplo, a proporção de decisões pró ou contra contribuintes por juízo, turma, tribunal, conselho administrativo, etc e, no futuro, por temas tributários discutidos nas cortes. 

Com esse tipo de inteligência jurídica, o advogado fica muito mais capacitado para tomar decisões estratégicas sobre contenciosos ou contingenciamento tributário nas empresas. A comunicação com o cliente, usando a linguagem precisa dos gráficos, gera muito mais credibilidade.

Vision classifica centenas de milhares de acórdãos de acordo com o resultado (pró ou contra contribuinte) em poucos segundos. Essa classificação permite a produção de inteligência de jurimetria como esta acima.

Segundo o Vision alimentará o sistema de filtros inteligentes da Turivius. Com ele, nossos usuários poderão fazer pesquisas com um nível de especificidade inédito. Por exemplo, o usuário faz uma busca usando palavras-chaves, como faria em qualquer ferramenta de busca. O interessante vem no próximo passo: o usuário pode pedir que o Vision filtre os resultados retornando apenas decisões unânimes e favoráveis ao contribuinte, relatadas por um juízo específico. O nível de eficiência gerada para a pesquisa jurisprudencial é drástico.

O Vision alimentará o sistema de filtros inteligentes da Turivius. O usuário poderá usar filtros como o destacado acima e pedir que a plataforma retorne apenas decisões unânimes e favoráveis ao contribuinte, relatadas por um juízo específico. O nível de eficiência gerada para a pesquisa jurisprudencial é drástico.

Matéria-prima do Vision: textos de acórdãos e redes neurais recursivas. 

O Vision nada mais é que um algoritmo de machine learning (ML), que é o nome técnico mais correto para o que se convencionou chamar de inteligência artificial. ML é uma classe de algoritmos estatísticos e computacionais, ou ‘máquinas’,  que aprendem com os dados, daí o nome ‘aprendizado de máquina’. Essas ‘máquinas’ podem aprender sozinhas (unsupersived leaning) ou podem ser treinadas por humanos (supervised learning). No último caso, humanos fazem a classificação das observações, passam-nas para a máquina, que identifica o padrão dos humanos e o replica em outras classificações.

O Vision foi treinado a achar as palavras-chaves em um acórdão que estão associadas aos tipos de decisões descritas acima. Esse processo tem vários desafios. O primeiro deles é diferenciar se um julgamento ‘positivo’ no acórdão se refere ao conhecimento da petição ou ao mérito do recurso. 

Fases do campo da inteligência artificial. OS modelos mais complexos e precisos são chamados de deep learning. Esses são um subconjunto da área de Machine Learning que utilizam redes neurais. Fonte da figura: www.towardsdatascience.com

O próximo passo é utilizar redes neurais para processar essas ‘tabelas’. As redes neurais classificam os acórdãos em categorias diferentes e ‘testam’ parâmetros diversos para  minimizar uma função que mede o erro das classificações para cada parâmetro, conhecida como loss function. Assim, a rede neural escolhe qual parâmetro possibilita mais acertos.

Depois de escolhido os melhores parâmetros, nós testamos o nível de acurácia das classificações em um conjunto de decisões separadas. Os percentuais relatados acima são o nível de acerto sobre esse conjunto de decisões separadas.  

Em suma, o Vision é uma evolução tecnológica inédita no Brasil. Usando inteligência artificial ele possibilitará ganho de eficiência enorme para advogados. Com ele, nossos usuários podem aplicar filtros inteligentes de pesquisa jurisprudencial que os trará exatamente os resultados que precisam em poucos segundos. A jurimetria alimentada pelo Vision possibilitará a tomada de decisões estratégicas mais assertivas no contencioso e consultivo tributário, além de parametrizar com mais acurácia o contingenciamento tributário das empresas.

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Direito e Tecnologia

Direito e a adoção de novas tecnologias: o caso do Velloza Advogados

Existe uma grande narrativa sobre a transformação digital do Direito, repetida na cabeça dos advogados quase dia e noite. Paradoxalmente, o setor de serviços jurídicos ainda investe muito pouco em tecnologia. Esse paradoxo implica que há ainda questões institucionais, culturais e mesmo geracionais que devem ser superadas antes do setor abraçar o potencial de novas tecnologias. O processo de escolha, aquisição e adoção de novas ferramentas de trabalho não é trivial, mesmo que as vantagens sejam claras. 

Os desafios e dilemas para escritórios, de qualquer porte, são grandes. A melhor forma de aprender é conhecendo casos de quem já atravessou o Rubicão. 

A Turivius fez uma longa entrevista sobre esse assunto com Fabrício Parzanese dos Reis, sócio do Velloza Advogados. Fabrício acompanha a adoção de novas tecnologias no escritórios há duas décadas. Atualmente ele coordena o Comitê de Inteligência Artificial do Velloza. 

Fabrício compartilhou sua visão sobre como as novas tecnologias mudarão o papel do advogado, mesmos daqueles no início de carreira, deu dicas sobre como planejar a avaliação de ferramentas digitais dentro do escritório e como deve ser feita a governança do planejamento. Ele também falou sobre o principal desafio na adoção de novas tecnologias: a adoção pelo time. 

Veja abaixo a íntegra da nossa conversa e entenda como esses dilemas e desafios podem ser navegados com facilidade, desde que haja o planejamento correto, por escritórios de qualquer porte.

Novas tecnologia e a transformação do papel de advogado.

Danilo Limoeiro: Fabricio, vamos começar com um tema mais geral. Nós temos toda essa narrativa de transformação digital do Direito e as vezes isso é visto como ameaça, tem toda essa narrativa de que o robô vai substituir o advogado. Mas também como a grande oportunidade de utilizar processos, de aumentar capacidade de análise etc. Nessa discussão, o que podemos separar como ameaça e como oportunidade para os profissionais de serviços jurídicos com as novas tecnologias que estão surgindo?

Fabrício Parzanese: Eu acho que a função do advogado sempre esteve em transformação e nós estamos passando por mais um momento de transformação. A ameaça, na verdade, está relacionada a mudança da forma como o profissional vai a atuar, mas de forma alguma eu vejo algum tipo de ameaça a função do advogado ou papel que ele desempenha no processo jurídico e judicial. 

O que acontece ao longo dos anos, principalmente com o início dos sistemas de informática, a jurisprudência sempre teve um papel central na atividade do advogado, principalmente do advogado de contencioso, e as ferramentas de pesquisa de jurisprudência foram se modernizando e se digitalizando. O que nós temos hoje é um sistema o qual você ainda precisa de uma atuação humana muito intensa para encontrar bons resultados. Tanto na doutrina quanto na jurisprudência. O volume de informações aumentou e hoje nós temos profissionais, sobretudo os recém-formados ou os estagiários que estão ingressando no mercado que ficam muito direcionados nessa atuação, nessa busca de informações que as vezes pode ser extremamente burocrática, repetitiva e ineficiente. 

Por outro lado, você tem ferramentas surgindo que podem substituir essa massa de trabalho de ineficiência e repetição e jogar o profissional direto para acima da informação. O advogado ou, principalmente, o recém-formado vai sumir? Não, ele não vai sumir, vai mudar a função dele. É uma transformação extremamente positiva porque o tempo de pesquisa dele tende a se reduzir. O grau de acerto e de precisão sobre as buscas que ele faz tende a aumentar e ele vai ter mais tempo disponível para se debruçar sobre a matéria e criar conteúdo. Eu acho que enxergar como uma ameaça, sim, ameaça a forma como trabalhamos hoje.  Essa está com os dias contados, mas não ameaça de forma alguma a função do advogado, essa está se transformando e se tornando mais técnica, o que é muito bom.

Tecnologia e o Estagiário 2.0

Danilo Limoeiro: Interessante. Você falou sobre a pesquisa jurisprudencial e o papel que estagiários e advogados juniors têm. Geralmente, o que você tinha no ano passado é que para o estagiário você dava os piores trabalhos possíveis, algo que ninguém queria fazer. Você passava isso para um estagiário. 

Isso muda um pouco com a tecnologia. Logo, estaríamos falando de uma espécie de Estagiário 2.0, que você não contrata para fazer aquilo que ninguém mais quer fazer, mas sim como forma de recrutamento e treinamento. Como é que você está vendo o papel das tecnologias no impacto das funções do primeiro trabalho do advogado que entra como estagiário e depois como advogado junior?

Fabrício Parzanese: Eu vejo de forma extremamente positiva porque me parece uma recuperação da função essencial que ele tinha e deveria ter sido mantida no estágio pedagógico e mesmo das funções do profissional que está ingressando no mercado. Obviamente que no passado, quando nós não tínhamos essa massa de informações e de processos burocráticos para serem seguidos, quando tudo era muito mais simples, havia mais tempo disponível para se debruçar sobre a matéria. Os processos aumentaram, o número de processos por advogados cresceu de maneira muito grande dentro dos escritórios e as funções burocráticas acabaram tomando setenta por cento do tempo dos profissionais. Quando a tecnologia entra para tomar parte desse tempo, reduzir parte desse tempo, a função do advogado e a do estagiário ficam mais relevante

O Estagiário 2.0  é alguém que está de volta àquela função pedagógica primordial de formação, de constituição, com tempo disponível para isso. É uma tendência natural, sem dúvida alguma, que o profissional recém ingressado numa instituição pegue o trabalho que carrega menos responsabilidade ou onde os erros podem ser melhor controlados. Na nossa atividade, eu sou um advogado de contencioso, você tem um primeiro passo que é olhar o que se fala a respeito de determinada matéria, quais são os artigos, quais são a decisões relevantes ou não. O trabalho de pesquisa, de mineração, de informação com muitos dados, fica essencialmente com esses profissionais, com os estagiários. Tende a ser melhor porque eles vão chegar ao núcleo da informação de maneira muito mais rápida e irão avançar, depurar melhor isso. 

A mesma coisa para os processos, para os procedimentos. A elaboração e o protocolo das petições que antes você tinha um deslocamento físico do profissional, da porta do seu escritório até a porta do fórum, uma fila para protocolar, tudo isso deixa de existir. Hoje temos o protocolo sendo feito dentro do próprio escritório, na máquina do advogado. Um estagiário que antes montava a peça e tinha uma função quase de um despachante, de simplesmente organização de documento, carimbos, que era uma função importante, continua existindo, mas hoje ela está na mão do advogado. O advogado não terceiriza mais porque ele está na máquina dele fazendo. A tecnologia vem para colocar no lugar de destaque a matéria, e eu acho que isso é muito importante. 

Por que o setor jurídico ainda investe muito pouco em tecnologia? 

Danilo Limoeiro: Quando nós olhamos para os setores de serviços jurídicos hoje, vemos que ainda ele investe pouco em tecnologia. De acordo com a pesquisa que fizemos aqui na Turíbios, o setor investe em media 6% do faturamento em aquisição de tecnologia enquanto a média do setor de serviços é em torno de 11%. Se olharmos para o setor de serviços financeiros, essa média chega a 15%. Qual seria sua hipótese para ainda termos um investimento baixo do setor de serviços jurídicos em tecnologia a despeito de toda essa narrativa que ouvimos sobre transformação digital do Direito?    

Fabrício Parzanese: Eu acho que a formação do advogado, a característica do advogado do Brasil, é um serviço personalíssimo. É um profissional que atua de maneira pessoal, de maneira direta, buscando e fornecendo, prestando serviço com seu conhecimento. Muito embora o advogado já tenha assimilado há muito tempo a tecnologia para a aquisição de informação, ele aplica pouco isso na entrega [dos seus serviços]. Isso com tempo acaba se refletindo em vários setores e eu acho que voltando para um exemplo de contencioso, nós temos um código de Processo Civil que foi pensado e vem sendo desenvolvido ao longo dos anos, o nosso código hoje ele é resultado de vários outros códigos anteriores, mas ele ainda carrega uma herança do desenvolvimento de um trabalho muito artesanal, feito pelo profissional, com a mão no processo, frente a frente com juiz em noventa e nove por cento do tempo, o que já está mudando.

[N]ós temos um conjunto de regras que norteia nossa atividade não pensado com a tecnologia no seu desenvolvimento. Ele ainda é pensado de uma maneira analógica, existe uma dificuldade de adoção dessa cultura da tecnologia. Isso está mudando, o processo digital está forçando essa mudança. Mas toda aquisição de tecnologia demanda planejamento. Você trazer a tecnologia, trazer as inovações para seu dia a dia, demanda planejamento. Principalmente quando você tem um desafio tão grande, como no Direito, de você conciliar uma atividade extremamente clássica e cheia de heranças, dogmas, protocolos, com um mundo simplificado e dinamizado. 

Você tem que conciliar esses dois mundos. O planejamento é essencial nesse processo. O que me parece que o processo digital no nosso país não foi planejado. Existe uma lei federal estabelecendo como funcionarão os processos digitais e os Tribunais de Justiça têm se organizado de maneira isolada na adoção de tecnologia. O que dificulta para o prestador do serviço a adoção de uma única solução. O que acaba acontecendo na maioria dos casos é que o advogado aceita de maneira muito passiva aquilo que os tribunais vão implementando, mas ele não se prepara para tentar melhorar aqueles processos, procedimentos e tecnologias que estão sendo oferecidas para ele. Existem inúmeras ferramentas que podem auxiliar nisso e se houvesse alguma padronização nacional acerca das tecnologias que se usarão, tipos de procedimentos que vão ser adotados, para que não houvesse distinção completa. Por exemplo: quando você no Tribunal de Justiça da Bahia, ele tem uma interface e um sistema de localização de dados ou de inserção de documento, distinto do TJ do Rio de Janeiro. A realidade é que a advocacia atua em âmbito nacional. Isso dificulta, desincentiva investimentos em tecnologia e acaba relegando o advogado para aquela forma de atuação ainda um pouco arcaica.

Planejamento para adotar Inteligência Artificial

Danilo Limoeiro: E falando um pouco de planejamento, eu queria falar um pouco do caso do Velloza Advogados, que montaram um comitê de inteligência artificial em 2018, quando a discussão sobre a inteligência artificial ainda estava bem no início e vocês anteciparam essa tendência. O que vocês viram no mercado naquela época que motivou vocês a criar esse comitê de inteligência artificial?

Fabrício Parzanese: O escritório sempre esteve muito atento e foi muito aberto para inovações tecnológicas. Nós começamos nosso processo de informatização, de procedimento e de rotinas, no final da década de noventa. Nós trabalhamos em conjunto com um desenvolvedor naquela época, que hoje é um dos principais desenvolvedores de software de gestão de processos. O nosso sistema, que usamos até hoje em versões mais atualizadas, foi criado em conjunto com esses desenvolvedores porque era algo que ainda não existia na época.  Ele veio de uma necessidade que nós tínhamos de organização. 

O escritório tem uma característica de atuar em grande quantidade com processos que não comportam massificação. Nós lidamos com causas tributárias, que embora haja um grande volume nessas ações, não são ações como: consumidor ou tarifas, esse tipo de coisas de serviços públicos que comportam aquela massificação e recuperação de crédito. Nós temos que atuar no caso a caso. Isso demanda muita organização. As demandas de espaço, de tempo e principalmente de visualização dos processos, de ter relatórios precisos para eu organizar onde eu preciso atuar para agilizar, para fazer o processo subir para o tribunal, onde tenho que entregar memoriais. 

Tudo isso nos levou a abraçar a tecnologia e tê-la como uma cultura desde o final da década de noventa. Acompanhando todos esses processos, nós começamos a perceber com os robôs de trabalho repetitivo, que havia mais uma grande onda de transformação em andamento com a inteligência artificial. Mas nós percebemos que os produtos que estavam no mercado estavam muito mais voltados a trabalhos repetitivos, ao contencioso de massa, do que no nosso nicho. 

Nós ouvimos alguns desenvolvedores e percebemos que precisaríamos de um grupo de trabalho voltado para a pesquisa de mercado para saber onde nós iriamos encontrar alguém que tivesse condições de desenvolver uma ferramenta de inteligência artificial com a cara do escritório, com o jeito que o escritório tem de trabalhar.

Comitê de Inteligência Artificial e governança interna do escritório

Danilo Limoeiro: Queria saber duas coisas sobre o comitê: primeiro, como é que foi o processo de implantação do comitê? Estamos falando de um escritório bem grande, imagino que esse processo não tenha sido trivial. E segundo, como é que foi a experiência de aquisição de tecnologia a partir da criação desse comitê?

Fabrícia Parzanese: Nós temos um plenário que são todos os sócios, hoje nós somos em treze sócios, e nós criamos diversos comitês. Nós temos um comitê de trabalho pró-Bono, nós temos um comitê administrativo, um comitê de comunicação, e o comitê de inteligência artificial surgiu da necessidade de você ter sócios com tempo disponível, com tempo dedicado à identificação e ao desenvolvimento dessas ferramentas. 

A eleição dos membros leva muito em consideração a área de atuação de cada um deles e um pouco as características pessoais. Nós votamos abertamente, por maioria simples, dentro do quórum dos sócios, e a minha eleição foi porque eu trabalho com contencioso, estou com um contencioso de vinte anos e tenho uma característica de estar acostumado com esses processos anacrônicos e um pouco resistentes a tecnologia em alguma medida. Foi um pouco como uma forma de forçar os desenvolvedores a falar nossa língua do judicial. Se nós colocássemos alguém muito mais próximo do mercado financeiro, que é um setor que tem a tecnologia como uma premissa há muito tempo e muito adotada há muito anos, talvez não houvesse a implementação disso ou a aplicação disso para todas as áreas do escritório não fosse tão efetiva. A ideia foi pegar os dois extremos e colocá-los para trabalhar em conjunto. A criação foi dessa forma e os primeiros passos do nosso trabalho foram no sentido de encontrar o que havia de disponível no mercado.

Rapidamente identificamos que o mercado trabalhava com o massificado, essencialmente. Nós começamos a procurar desenvolvedores ou produtos onde nós encontrássemos espaço para o desenvolvimento conjunto. Um pouco tentando repetir nossa experiência do final da década de noventa, lá nos trabalhamos em parceria. Foi isso o que o comitê se dedicou a fazer.

Projeções e oportunidades em novas tecnologias de Inteligência Artificial

Danilo Limoeiro: Hoje em dia, quais são as tendências, informações, oportunidades, que o comitê está olhando? Tem algo do tipo: daqui a cinco anos nós esperamos que o mercado esteja de tal forma? Tem algum tipo de projeção para o uso de tecnologias no mercado, como é que vocês estão trabalhando hoje? 

Fabrício Parzanese: Nós precisamos organizar. A discussão sobre inteligência artificial no comitê [comitê interno de Inteligência Artificial do Velloza], o primeiro ano de trabalho, nos levou a uma discussão muito etérea. As conversas exploravam muito o potencial da inteligência artificial, mas elas acabavam ficando um pouco longe da aplicação prática e de algo palpável no momento. Logo, organizamos um pouco a nossa agenda.

A primeira aplicação que vimos e que era realmente muito necessária foi voltada a jurisprudência. Começamos a buscar formas de otimizar e de aumentar o grau de certeza, o grau de resultado das pesquisas jurisprudências e encontramos nesse caminho a Turivius,  que tinha uma ferramenta posta já muito próxima daquilo que havíamos idealizado e não estávamos conseguindo tirar do papel, que era uma pesquisa integrada com jurimetria e que me mostrasse tendências de decisão, não simplesmente bons resultados ou bons julgados.  

Isso nós conseguimos no site, o que não conseguimos é essa visão dinâmica e a Turivius nos entregou isso. Esse foi o primeiro foco de atuação. Nós entendemos que ele está, de certa forma, dimensionado e atendido. Agora nós estamos buscando o auxílio da inteligência artificial para entender melhor e para poder explorar melhor o nosso conteúdo produzido ao longo dos vinte e cinco anos de escritório. Acho que os leitores de PDF, somados a algoritmos de inteligência artificial, toda essa tecnologia pode nos ajudar a recuperar todo conteúdo doutrinado que nós produzimos ao longo dos anos. A nossa busca, atualmente, é como a inteligência artificial pode nos ajudar nisso. As tendências vão por isso, nós conhecemos robôs como Watson da IBM, a Carol da TOTVS, que são robôs que conseguem ler uma grande quantidade de informação e trabalhar isso de alguma forma. 

A nossa ideia é como esse tipo de tecnologia pode nos ajudar com nosso acervo, como ele pode colocar meu acervo para trabalhar a meu favor. Acho que uma das tendências do mercado é justamente essa, você ter a inteligência artificial te ajudando de maneira efetiva no direito material, trazendo informação com algum grau de precisão e do lado administrativo. 

Os algoritmos e a matemática, sobretudo, podem nos ajudar em definição de questões muito árduas dentro do escritório, relacionadas a precificação ou mesmo até a identificação de ineficiências no fluxo operacional. Mesmo com matérias que você investe ou determinadas áreas de atuação onde a rentabilidade é baixa. Todos os escritórios hoje, pelo menos os de médio porte, os de grande porte com certeza, eles já têm uma massa de dados muito consolidada a respeito do trabalho desenvolvido. Os advogados que lançam horas estão criando uma base de dados importantíssima, porque você tem a quantidade de horas investidas pelo profissional em determinado processo e com determinado resultado, isso já está aqui. Ele lança horas no caso determinado, eu sei quais foram as decisões, eu sei qual foi o resultado. Conjugar tudo isso e me mostrar o resultado do investimento de tempo, recursos humanos e a resposta financeira a tudo isso, pode tornar a nossa gestão muito mais eficiente. As tendências que nós enxergamos para o futuro da inteligência artificial dos algoritmos e da tecnologia como um todo nos escritórios é um pouco isso.

Os desafios internos de adoção das tecnologias

Danilo Limoeiro: Na sua trajetória de duas décadas no Velloza você já deve ter visto vários sistemas de tecnologia serem implementados com níveis diferentes de sucesso. Para você, quais são os principais desafios de implementar a tecnologia em escritórios jurídicos? Existe alguma receita de sucesso ou alguns pontos para saber se vai dar certo ou não?

Fabrício Parzanese: Eu acho que a palavra chave é adoção, um termo que eu aprendi recentemente. A tecnologia acaba se integrando de tal forma a esse trabalho artesanal que o advogado desenvolve que você precisa ajudar o profissional a adotar essa tecnologia como algo próprio, como algo que está ali próximo de suas mãos e executando junto com ele. Quando você apresenta uma tecnologia para um profissional que se acostumou a trabalhar de determinada forma, você não pode colocar isso e falar que agora ele vai trabalhar dessa forma, esqueça como ele fez até agora. A tendência é ele pensar que o que ele fez até agora é retrogrado, é desatualizado, não vale mais. 

Não, não é isso. A preocupação com a adoção da ferramenta é a chave do sucesso, principalmente quando ela está muito próxima na execução. Nós adotamos ferramentas tecnológicas em vários níveis, inicialmente nos níveis de gestão dos processos, essa foi muito bem aceita, porque de fato facilitava. Num determinado momento nós vimos que a minha ferramenta servia como uma base de dados para que os profissionais criassem planilhas de Excel próprias e ele é, como todo organizador, extremamente eficiente, muito bem aceito, então as pessoas que tem familiaridade já chegam no escritório sabendo mexer com Excel. O Excel começou a ser um problema, porque cada profissional criava o seu. Nós percebemos que tínhamos que aproximar o profissional do nosso sistema para dizer que tudo o que ele estava fazendo no Excel nosso programa também vai dar e tem a grande vantagem de ter controle dos processos, dos dados daquele profissional e de todos os outros. Se aquele profissional se desligar, ele não leva embora com ele a planilha dele, ou se ele ficar dois meses de licença, a planilha dele não vai ficar desatualizada. 

Essa primeira parte de gestão dos processos foi muito bem aceita, conseguimos colocar o nosso sistema como sistema central e único a ser utilizado. Depois nós avançamos para algo mais difícil, porque começamos a mexer na forma como os profissionais guardavam suas peças, saindo do sistema do Explorer e usando um sistema de GED. Essa adoção, fazendo uma reflexão, foi um processo de adoção que foi falho, porque nós conseguimos implementar com muito sucesso numa parte do escritório e outra parte não usou.   

Danilo Limoeiro: O que aconteceu com essa outra parte?

Fabrício Parzanese: A outra parte continuou um pouco resistente, ela tinha um volume menor de criação de documentos em Word, e eles continuaram usando as pastas pessoais. Talvez o erro tenha sido não ser impositivo e dizer: tua pasta pessoal vai desaparecer, você vai ter que usar o GED. Isso foi muito aceito a quem já tinha o sistema operacional de processos adotado porque eles eram integrados. Os setores do escritório que não trabalhavam necessariamente com processos judiciais acabaram tendo o GED como uma alternativa e não como uma solução. Houve de fato uma falha na adoção, com isso nós aprendemos, e foi revertido ao longo dos anos, que a atenção com a adoção é fundamental para você integrá-la ao dia a dia e quebrar as resistências. O profissional mais resistente pode demorar um pouco mais de tempo até aquela ferramenta, mas ele vai olhar para o lado e vai ver que está todo mundo usando, vai ver que é bom e vai acabar adotando.

Danilo Limoeiro: Você falou que o pessoal que adotou melhor o Ged é quem já tinha usado os gestores de processo eletrônicos. Quanto mais atrasa para adotar uma tecnologia, isso tem efeito na adoção de quase todas as outras?

Fabrício Parzanese: Exato. É um círculo vicioso. Você faz um atraso e ele se converte rapidamente num círculo virtuoso, porque na medida que o profissional está habituado com a tecnologia, ele começa a criticar as versões e sugerir implementações. Ele começa a querer mais tecnologia naquilo. Logicamente quando ele aciona um filtro determinado e vê que tem resultado, ele já começa a pensar automaticamente em como aquele filtro poderia melhorar. Essa busca por uma progressão contínua na adoção de tecnologia ou na otimização desses processos acaba sendo integrada a própria cultura do escritório, da empresa. Nós vemos hoje esse pioneirismo na adoção de tecnologia como resultado daquela postura que nós adotamos no final dos anos noventa. Um processo que até hoje vem se desenvolvendo.

Adoção de tecnologia em escritórios de pequeno e médio porte

Danilo Limoeiro: Da experiência de vocês, o que poderia ser aplicável também para o escritório de médio porte ou mesmo para escritório de pequeno porte?

Fabrício Parzanese: Eu acho que é praticamente integral a adoção das tecnologias que nós usamos. Os escritórios de grande porte têm uma disponibilidade financeira para investimento maior, mas as plataformas que existem hoje no mercado são extremamente accessíveis. A computação em nuvens evoluiu, de uma certa forma, nos últimos cinco anos e conseguiu garantir segurança para as informações em nuvens e isso tornou as plataformas extremamente mais baratas. Eu acho que os escritórios de pequeno porte, de médio porte, podem enxergar os sistemas operacionais, hoje, como algo muito próximo da realidade deles e muito efetivo. 

O impacto positivo de uma ferramenta dessas no escritório de pequeno porte é exatamente o mesmo de um escritório de grande porte, o ganho é o mesmo. E não está limitado só a gestão de processos, mas sim, a forma como nós entregamos o nosso trabalho. A pesquisa jurisprudencial, o controle das doutrinas, o arquivo, a forma de guarda do seu acervo produzido internamente, o grau de pesquisa que você coloca sobre o seu acervo; tudo isso pode ser adotado por os escritórios de pequeno porte. As ferramentas, hoje, são muito mais accessíveis; estão disponíveis online e vão estar cada vez mais integradas aos sistemas dos tribunais. É um pouco um movimento que é, de certa forma, sem volta. Não está mais restrito a grandes corporações e é algo que os escritórios de pequeno porte acabarão adotando de uma forma ou de outra.

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Direito Tributário

3 perguntas sobre o fim do voto de qualidade no CARF

O time da Turivius conversou com Natalie Matos Silva, do Mattos Filho Advogados. Natalie comentou as três principais questões relacionadas ao fim do voto de qualidade do CARF:

  1. O pêndulo mudou mesmo integralmente para o lado do contribinte?
  2. O voto de qualidade pode levar à redução do contigenciamento tributário das empresas? 
  3. Dar à PGFN a possibilidade de recorrer judicialmente de uma perda no CARF seria uma boa saída? 

Entenda como um dos principais escritórios do país tem refletido sobre esse tema. Confira as respostas no vídeo. Veja o resumo da entrevista abaixo. 

Sobre a entrevistada

Natalie Matos é advogada do Mattos Filho Advogados desde 2011. É mestre em Direito Tributário e bacharel el Direito pela USP, LLM pela Universidade da Flórida e especialista pelo Instituto Brasileiros de Direito Tributário (IBDT)

1. O fim do voto de qualidade mudou o pêndulo integralmente para o contribuinte? 

Natalie contesta a ideia de que o fim do voto de qualidade do CARF mudou o pêndulo integralmente para o contribuinte. O voto de qualidade passou a chamar mais a atenção depois da operação Zelotes. Desse momento em diante, o voto de qualidade passou a ser aplicado em casos de maior valor e maior relevância, nas chamadas ’teses fiscais’. Essas são autuações baseadas no entendimento do Fisco sobre determinadas matérias. Normalmente são matérias bastante relevantes.

Por exemplo, temos as questões do ágio, que são gigantescos. E também a aplicação da trava de 30% na compensação de prejuízos em casos de incorporação de empresas. No pós-Zelotes, esse tipo de operação passou a ser julgada no CARF contrário ao contribuinte, muitas vezes via voto de qualidade. O ponto aqui, portanto, não é se o pêndulo virou integralmente ao contribuinte, mas sim que, talvez o pêndulo estava virado demais para o lado do Fisco. Assim, o fim do voto de qualidade pode resultar em autuações mais técnicas, menos baseadas em teses fiscais e que não decorram tanto de interpretações do Fisco. Esse é um ponto que podemos ver como um desenvolvimento da aplicação do voto de qualidade no futuro.  

2. O fim do voto de qualidade pode levar à redução do contigenciamento tributário das empresas? 

 Está um pouco cedo para afirmar qual vai ser o impacto do fim do voto de qualidade nas avaliações de risco dos passivos tributários e no reconhecimento ou não de provisões. Precisamos antes ver como o fim do voto de qualidade será aplicado pelo CARF.  O CARF já começou a aplicar a nova regra em julgamentos virtuais de menor valor. No entanto, vai ser preciso ainda saber qual será o entendimento da aplicação da nova regra em função da fase em que o processo se encontra. Além disso, temos várias ADINs questionando a nova regra. Então são várias variáveis que devem ser ponderadas antes que se possa mudar qualquer avaliação de chance de perda e contigenciamentos em processos.  

3. Dar à PGFN a possibilidade de recorrer judicialmente de uma perda no CARF seria uma boa saída? 

 Essa possibilidade viria na contramão de tudo que tem sido feito e proposto no sentido de desafogar o Judiciário. Os impactos seriam você ter o Judiciário muito mais abarrotado de casos tributários e de outro as empresas tendo que garantir débitos tributários bastante significativos. Então essa medida causaria prejuízos para todos os lados. Os contribuintes precisariam buscar a garantia desses débitos para poder acionar o Judiciário. O próprio Judiciário seria afetado por ficar ainda mais sobrecarregado.

Entenda como a Turivius pode te gerar insights estatísticos exclusivos sobre a jurisprudência do CARF e te ajudar a navegar pelas decisões do Conselho. Conheça nossa plataforma de pesquisa inteligente e jurimetria integrada. 


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Advocacia do futuro Dicas de carreira Direito e Tecnologia Educação e ensino jurídico

Os rumos da advocacia digital: 6 práticas que você precisa dominar

Com a transformação digital, o mundo ressignificou suas relações interpessoais, de trabalho e de serviços. O surgimento de startups e de modelos de negócios baseados em inovação representou um verdadeiro revés em segmentos tradicionais do mercado, como o direito, que se viu caminhando para um novo rumo: o da advocacia digital. 

Com o aumento da digitalização e automatização de procedimentos, a forma como serviços jurídicos são prestados está mudando, e muito se questiona sobre o papel dos profissionais de direito em toda essa transformação. 

Afinal, o que é preciso saber? Como as novas tecnologias vão beneficiar o trabalho do advogado? Como incorporar novas tecnologias à rotina? 

Continue lendo este artigo para descobrir.

O que é advocacia digital?

Antes de falarmos sobre os desdobramentos da advocacia digital e sobre seus impactos na rotina do profissional, é preciso termos o conceito claro. 

A advocacia digital oferece novas soluções jurídicas por meio da tecnologia. A prática reúne ferramentas e estratégias digitais que transformam a forma que você:

  • Adquire novos clientes, 
  • Aprende sobre os temas jurídicos, e
  • Executa e entrega os seus serviços.  

Com isso, você executa de forma diferente tarefas relacionadas ao marketing do seu escritório, seus estudos e do seu time, a forma de se relacionar com clientes, e até a pesquisa jurídica e a forma de analisar de dados complexos do Judiciário. 

É essencial compreender que a advocacia digital surge e se consolida como uma ferramenta de apoio, e não de substituição à expertise humana. A ideia é que as soluções digitais sejam conjugadas ao trabalho do advogado, criando, assim, condições para o alcance de resultados mais eficientes, ágeis e completos.

O que um advogado digital precisa conhecer? 

Para atingir um status de integração plena à advocacia digital, é preciso conhecer algumas ferramentas e estratégias, e, principalmente, saber como fazê-las trabalhar a seu favor. 

Conheça abaixo as 6 práticas que você deve dominar

1. Técnicas de marketing digital

Um dos impactos mais perceptíveis da transformação digital é a presença online de uma porcentagem expressiva da população brasileira: segundo a pesquisa TIC Domicílios, 70% dos brasileiros — ou 126,9 milhões de pessoas — faz uso da internet. 

Isso significa que para ser visto e encontrado por potenciais clientes, é preciso conhecer técnicas básicas de marketing digital. A principal delas é a presença ativa nas redes sociais. LinkedIn, Facebook e Instagram são os canais convencionais, mas destaca-se quem vai além, e encontra seu espaço em mídias como o YouTube, os podcasts e o e-mail marketing. 

A migração dos advogados para as redes sociais também reforça um importante movimento muito ligado à transformação digital: a democratização do conhecimento jurídico. Com o aumento do nível de exigência da população sobre todos os serviços consumidos, cresce também a necessidade de entender mais sobre o que lhes é oferecido, bem como de atestar, por experiência própria, a credibilidade do profissional contratado. 

2. Digitalização de documentos e armazenamento em nuvem 

O tempo de grandes bibliotecas físicas e gavetas lotadas de documentos nos escritórios está com os dias contados. Uma tendência de conhecimento obrigatório para quem está entrando no mundo da advocacia digital é o armazenamento em nuvem. 

A tecnologia, que permite o acesso a arquivos e dados de qualquer lugar, a qualquer hora, cresce a cada ano em popularidade no meio jurídico, como comprova a pesquisa TechReport, divulgada em 2017 pela American Bar Association. 

O relatório mostra que o número de advogados utilizando tecnologia em nuvem cresceu 40% entre 2016 e 2017, e que a tecnologia é popular entre profissionais que atuam solo ou em pequenas empresas. 

Entre os benefícios da ferramenta listados pelos entrevistados, estão: 

  • facilidade de acesso,
  • backup de dados eficiente,
  • baixo custo, e
  • despesas previsíveis.

Essa tendência deve crescer ainda mais com o crescimento da possibilidade de trabalho remoto dos advogados. Ao trabalharem de casa, os advogados precisam poder acessar e arquivar documentos na nuvem. 

A Turivius oferece uma ferramenta que permite a gestão digitalizada de todo o conhecimento jurisprudencial. Com as Coleções, o advogado arquiva facilmente os resultados de sua pesquisa em pastas virtuais organizadas por temas, salvas na nuvem. 

Ele pode compartilhar essas pastas com seu time e elas são atualizadas automaticamente. É uma espécie de Pinterest para advogados. 

Clique no botão abaixo se você quiser conhecer melhor o sistema de coleções da Turivius.


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3. Ferramentas de cibersegurança

Quando falamos sobre ambientes virtuais, inevitavelmente falamos também sobre vulnerabilidade de dados. 

Por sorte, na mesma medida em que são aprimoradas as técnicas de violação de dados, são fortalecidas as alternativas para protegê-los. 

Face a isso é imprescindível que, ao migrar para a advocacia digital, o profissional conheça e utilize mecanismos de proteção digital, como o blockchain e o gerenciamento de identidades e acessos, por exemplo, para assegurar a integridade das informações armazenadas no sistema. 

4. Business Intelligence Jurídico

Você já ouviu falar em Business Intelligence (BI)? A expressão, traduzida como Inteligência de Negócios, abarca os softwares de análise de dados gerenciais. É mais uma opção de tecnologias que as tecnologias digitais oferecem aos profissionais que adotam a prática da advocacia digital. 

A inteligência de negócios ajuda, principalmente, a analisar dados que resumem o desempenho financeiro do mercado, encontram custos desnecessários e áreas com potencial para aumentar receita e lucro. Por exemplo, você sabe quais suas margens para cada cliente e ou a distribuição do seu faturamento por tipo de processo?  As ferramenta de  BI podem avaliar essas métricas com mais precisão, detalhamento e menos tempo. Assim você otimiza a saúde financeira do seu escritório. 

Lembre-se: o que não medido não é melhorado. 

5. Escritórios virtuais

O quinto item da lista de tendências da advocacia digital, é, na verdade, uma consequência do uso das ferramentas pontuadas acima. 

Os escritórios virtuais são uma resposta à desvinculação do espaço físico para a prestação de serviços jurídicos, já que, com dispositivos móveis e tecnologia em nuvem, é possível trabalhar literalmente de qualquer lugar, a qualquer hora. 

Para as empresas, o trabalho remoto só tem a acrescentar. Além de reduzir custos fixos, como contas de energia e aluguel de espaços, a mobilidade do escritório ainda permite incorporar à equipe profissionais qualificados de qualquer lugar do mundo. 

Já para os advogados, é uma oportunidade para buscar o tão sonhado equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal com rotinas de trabalho mais flexíveis. 

Depois da crise da COVID19 em 2020, os escritórios virtuais tendem a aumentar pois trabalho remoto passará a ser algo mais comum entre profissionais, inclusive para além do mundo jurídico. 

6. Jurimetria

Por fim, a última ferramenta essencial para compreender a advocacia digital é a aplicação de análises estatísticas ao direito. Como explicamos no nosso guia completo da jurimetria e direito, como consequência da revolução dos dados digitais e da inteligência artificial

Nesse outro artigo sobre jurimetria, explicamos as 5 razões pelas quais a jurimetria pode aumentar a competitividade dos escritórios na advocacia digital, que resumimos abaixo:

  1. Complementa a expertise e conhecimento tradicional com análise quantitativa rigorosa,
  2. Dá nova perspectiva em temas que você (acha que) domina bem,
  3. A jurimetria poupa tempo. Tempo é mais do que dinheiro: é o seu bem mais escasso,
  4. Pode ser sua porta de entrada ao Legal Design, e
  5. O uso da jurimetria pode aumentar seu faturamento por atrair mais clientes.

Preparamos para você esse guia completo sobre jurimetria e uma vídeo-aula para te introduzir ao assunto

E se você quiser saber mais sobre soluções para a advocacia digital, te convidamos para conhecer melhor a plataforma da Turivius.  Ela integra soluções de pesquisa jurisprudencial inteligente, jurimetria e gestão do conhecimento jurídico em uma única ferramenta. 

Nossa ferramenta, integrada ao conceito de advocacia digital, permite aos profissionais investirem tempo no que realmente importa: melhorar sua competitividade e faturamento atender melhor o cliente. 

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Otimizando a pesquisa jurisprudencial com o monitoramento da Turivius

De acordo com uma survey feita pela Turivius, advogados gastam em média 135 horas por ano fazendo pesquisa jurisprudencial em cada base de consulta relevante. Isso implica um gasto anual de R$ 10.350,00 com salários e um billing médio de R$ 67.000,00 para seus clientes, por advogado, só para fazer pesquisa.

Ou seja, pesquisa jurisprudencial custa caro para você e para o seu cliente.

Agora imagine o quanto você seria mais eficiente e competitivo se cortássemos dramaticamente esse tempo? Quais atividades você poderia fazer com essas 135 horas a mais?

Com a ferramenta de Monitoramento Jurisprudencial da Turivius, esse ganho de radical eficiência fica mais próximo da realidade.

Boa parte das horas gastas com pesquisa jurisprudencial são feitas apenas para checar se há decisões mais recentes de temas frequentemente pesquisados. Mas esse é o tipo de trabalho que poderia ser feito por um robô, que entende os temas que você tem interesse e te avisa todas vez que um tribunal publicar uma nova decisão sobre esse tema.

Com a solução de Monitoramento Jurisprudencial da Turivius, você pode monitorar as palavras-chave das suas pesquisas ou cadastrar palavras-chave relacionadas aos temas do seu interesse. Nossos robôs crawleadores trabalham dia e noite monitorando as publicações dos tribunais. Assim que uma decisão nova for publicada em qualquer tribunal ou conselho administrativo, você receberá uma notificação automática.

Monitoramento jurisprudencial 01
O Monitoramento Jurisprudencial da Turivius, inspirado na ferramenta Google Alerts. Com o Monitoramento Jurisprudencial você fica automaticamente atualizado sobre novas decisões do seu interesse

Como usar o Monitoramento da Pesquisa Jurisprudencial

  • Passo 1: Mantenha ativada a opção de ‘monitorar’ quando fizer alguma pesquisa na Turivius.
  • Passo 2: Ou cadastre novos termos no Monitoramento Jurisprudencial.
  • Passo 3: Quando nossos robôs identificarem novas decisões sobre esses temas, você recebe um alerta. É só clicar no alerta e conferir as novas decisões.

Você pode também usar o Monitoramento Jurisprudencial combinado com as suas coleções. Se a decisão for relevante, salve-a em uma das suas pastas e compartilhe com o restante do seu time.

Com a Turivius, além da busca inteligente e a jurimetria integrada à pesquisa, você fica atualizado de toda a jurisprudência em poucos cliques. Você investiu muito na sua formação. Poupe seu tempo e foque seu tempo no que de fato é importante. Ganhe competitividade deixando que nossa tecnologia faça o trabalho de atualização para você!

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Jurimetria e Direito: Guia completo – Parte 2 – exemplos de uso

Essa série de artigos é um guia  completo sobre jurimetria e como a análise quantitativa do Direito pode ajudar você e seu escritório a vencerem em um mercado cada vez mais competitivo. Foi escrito pelos co-fundadores da Turivius Legal Intelligence, uma startup que desenvolve aplicações de inteligência artificial ao direito. Somos ex-pesquisadores pela USP, FGV, Oxford e MIT, com diplomas de mestrado e PhD, e conhecimento das áreas de direito, estatística, ciência política e computação.

Aqui você vai entender o conceito de jurimetria, como a jurimetria surgiu, as tecnologias que possibilitam o seu avanço, como ela pode melhorar a competitividade e a receita do seu escritório, e quais as aplicações disponíveis hoje no Brasil e no mundo. Você vai descobrir também o que advogados de alguns dos principais escritórios do Brasil pensam sobre a jurimetria olhando os resultados de uma survey exclusiva que a Turivius fez em conjunto com alunos da Escola de Direito da FGV. Abordaremos os cinco passos para começar a usar jurimetria hoje, de forma prática e sem hype.

Ao final da sequência de posts, você estará habilitado a entender como a estatística pode reinventar o direito e como estar bem posicionado para aproveitar todas as oportunidades que a jurimetria vai te oferecer.

No primeiro artigo, explicamos o conceito de jurimetria e as 5 razões para usar jurimetria. 

Neste segundo artigo da série focaremos em exemplos reais da jurimetria. Apresentaremos os 4 principais tipos de aplicações de análises quantitativas do Direito e daremos exemplos de uso no Brasil e no exterior. Você aprenderá como os advogados dos principais escritórios americanos já estão usando o que lá é chamado de legal data analytics e as vantagens que eles encontram nessas técnicas. 

Além das aplicações comerciais, você também verá exemplos de estudos científicos que usam análises quantitativas para jogar nova luz sobre debates de ciência jurídica. Por exemplo, qual é o melhor horário do dia para você agendar o seu ‘embargo auricular’? É verdade que juízes têm aversão ao dissenso e tendem a votar com a maioria? Dê aqui seu palpite e nós apresentaremos as evidências ao final do texto. 

Mas antes disso, falaremos também das tecnologias que possibilitaram o ressurgimento da jurimetria. Afinal, como vimos no primeiro artigo da série, Loevinger cunhou o termo nos anos 1940. Por que toda discussão sobre jurimetria foi retomada só na década de 2010?

A tecnologia por trás da jurimetria

Dois fatores principais explicam a atual ‘renascença’ do termo: a revolução dos dados e a revolução da inteligência artificial.

A revolução dos dados

A matéria-prima de qualquer análise quantitativa, jurimetria inclusive, são os dados. O crescimento da quantidade de dados digitais disponíveis nos últimos anos foi exponencial. Só na última década, ou seja, ainda depois da Revolução Digital, a quantidade de dados gerados no mundo por ano cresceu de 2 zettabytes (ou seja, 2 trilhões de gigabytes) para 50 zettabytes, um crescimento de 25 vezes em uma década. A projeção é de que esse volume quintuplique até 2025.

A quantidade de dados digitais disponíveis cresceu 25 vezes nos últimos 10 anos e ainda deve triplicar nos próximos 5 anos. Fonte: Statistica Data Platform

Estão incluídos nessa medida 65 bilhões de mensagens por WhatsApp, 254 bilhões de e-mails enviados, 3.5 bilhões de buscas no Google, 95 milhões de fotos e vídeos compartilhados no Instagram. Isso em um único dia, segundo dados da Raconteur. É claro, a maioria desses dados não tem nada a ver com a atividade judicial. Colocamos aqui apenas para que você tenha ideia crescimento acelerado do que comumente é conhecido Big Data.

Obviamente, atividades legais não passaram incólumes à revolução dos dados. Na última década, as cortes brasileiras iniciaram a digitalização de seus processos e suas decisões passaram a ser publicadas em meio digital. Essas publicações digitais são a matéria-prima que alimenta os serviços de jurimetria.

A revolução da inteligência artificial

Mas os dados por si só não são suficientes para explicar a renascença da jurimetria. O que importa é o tipo de pergunta que eles podem responder. Para isso a inteligência artificial fez uma grande contribuição em duas frentes.

Primeiro, apenas coletar um volume enorme de base de dados não gera nenhuma análise. Os dados precisam ser estruturados, ou seja, organizados de uma forma que se possa fazer análises estatísticas sobre eles. Por exemplo, um arquivo em PDF com o acórdão de um tribunal não gera nenhuma análise estatística. É necessário separar e tabular informações, tais como as partes do processo, quem foi o relator, qual a demanda, como votou cada julgador, qual foi a demanda, qual o resultado final, etc.

Existem diversas formas de estruturar esses dados. Mas uma técnica importante é o uso de machine learning e deep learning. Por exemplo, aqui na Turivius o nosso robô Vision usa uma combinação de redes neurais recursivas e processamento de linguagem natural para classificar se o resultado de uma decisão foi contrária ou favorável ao contribuinte (ou alguma outra categoria intermediária)

Segundo, as técnicas de machine learning também permitem fazer perguntas mais complexas aos dados. Essas técnicas matemáticas permitem análises preditivas, ou seja, inferências sobre qual vai ser o resultado de um processo (embora aqui na Turivius sejamos um pouco mais cético sobre a acurácia dessas análises no estágio atual da tecnologia). Permitem também a aplicação de técnicas de processamento de linguagem natural (NLP, Natural Language Processing). O NLP, de forma resumida, é a tradução matemática de textos, possibilitando a interpretação de um volume gigantesco de textos em poucos segundos. Visto que o texto é a ferramenta fundamental do advogado, o NLP é especialmente interessante para a área jurídica.

Assim, embora o chamado de Loevinger para o uso da jurimetria tenha ocorrido décadas atrás, é natural que só nos últimos anos essa área do direito tenha aflorado. Isso porque as duas condições necessárias para o renascimento da jurimetria ainda não estavam postas. Precisávamos da ‘matéria-prima’ – os dados digitais em larga escala -, e de ‘máquinas’ para processá-los – os algoritmos  matemáticas que conhecemos como inteligência artificial.

Jurimetria na prática

O Jornal Financial Times recentemente deu grande destaque no uso de jurimetria por grandes bancas advocatícias nos EUA. Startups como Lex Machina, Ravel, Premonition e Blue J estão revolucionando o mercado jurídico anglo-saxão, seja complementando o trabalho de firmas tradicionais, seja permitindo que escritórios de médio porte compitam com grande bancas pelo uso da jurimetria, que lá é chamado de Legal Analytics.

A matéria mostra, por exemplo, como empresas de tecnologia nos EUA monitoram o histórico de decisões de alguns juízes em distritos importantes. Essas ‘legaltechs’ mostram  quantos ações coletivas (class action lawsuits) chegam em um determinado juiz por ano, o percentual de sucesso das ações, a probabilidade de um juiz conceder uma decisão liminar, quais os precedentes mais citados por juiz, a experiência e histórico de sucesso dos advogados em cada lawsuit. etc.  Para o CEO de uma dessas empresas, a maior penetração do Legal Analytics é uma questão de tempo. E quando a prática se popularizar, a questão será sobre a aptidão e competência dos escritórios em trabalhar com análises quantitativas.

O jornal britânico Financial Times discute como o Legal Data Analytics tem penetrado o mercado jurídico americano. Crédito da foto: ft.com. Clique na figura para ler a matéria completa (sujeito a paywall).

Nesta seção, ilustraremos algumas das principais aplicações da jurimetria para os escritórios e departamentos jurídicos. Para organizar a discussão, preparamos uma tipologia da jurimetria, separando as aplicações em diferentes categorias, que explicamos no infográfico abaixo. Os detalhes das categorias ficarão claro nas explicações e exemplos a seguir.

Apresentar os 4 tipos de jurimetria

Macro-jurimetria

Esse tipo de estatística mostra uma ‘visão panorâmica’ de estatísticas judiciais. Elas mostram, por exemplo, a quantidade de processos em diferentes tribunais, a quantidade de processos por temas, o percentual de inquéritos solucionados, etc. Esse é o tipo mais básico de jurimetria e são importantes para você ficar atualizado sobre os “grande números” da prática jurídica.

A Associação Brasileira de Jurimetria, instituição pioneira da jurimetria no Brasil, tem produzido uma grande quantidade de estudos que são um ótimo exemplo de macrojurimetria. Por exemplo, um dos seus estudos mais interessantes é sobre a persecução penal à corrupção no Brasil. O estudo mostra a quantidade de inquéritos policiais relacionados a crimes de corrupção em diferentes anos e regiões. Os pesquisadores concluem que 46,5% dos inquéritos se referem ao crime de lavagem de dinheiro, que a fase do inquérito leva em média 1 ano e 9 meses, e que, por exemplo, na Justiça Federal do Distrito Federal, 66% das denúncias são arquivadas (Núcleo de Estudos e Políticas Públicas USP e ABJ, 2019)

Análise de performance jurídica

Esse tipo de análise mostra a experiência e a perfomance dos advogados e escritórios em certos tipos de litígio. Os litígios podem ser separados por temas, tribunais, ou mesmo juízes. A partir daí, conta-se a frequência de casos em que um determinado advogado ou escritório atuou, bem como quantos desses casos foram vencidos por esse advogado.

Essas comparações geram benchmarks de performance para advogados. Assim, você consegue se comparar com a sua concorrência e usar essa estatística como um showcase das suas aptidões e experiências. São usadas também por clientes para avaliarem qual advogado contratar, ou também para avaliar a performance entre diferentes escritórios terceirizados.

A americana Premonition mede a taxa de sucesso de cada advogado ou escritório, por tipo de processo. Clique na imagem para visitar o site da empresa.

Legal Data Insights

Essa é provavelmente a área mais interessante e relevante da jurimetria. Aqui a análise vai complementar a sua expertise e realmente lhe ajudar a cobrir todas as bases para ganhar um caso e o cliente.

As quantidades estatísticas são diversas. A jurimetria pode te dar “carômetros” estatísticos de juízes de primeira instância do TJSP; mostrar o percentual de decisões favoráveis ao contribuinte de um conselheiro do CARF; apresentar o volume de processos sobre uma tese tributária específica  em diferentes tribunais ao longo dos anos e como esses tribunais têm aceitado essa tese; o valor médio de indenizações ao consumidor por tipo de demanda por juízo; a súmula mais frequentemente citado pelo magistrado em suas decisões; dado um tema, qual a linha de argumentação mais bem-sucedida com aquele magistrado; qual o peso da evidência versus argumentação em um determinado tipo de litígio, a probabilidade de um certo tipo de planejamento tributário gerar uma autuação, etc.

Ou seja, as possibilidades para a geração de insights são enormes. As únicas limitações são a disponibilidade de dados e as necessidades dos advogados.

Percentual de decisões contrárias ao contribuinte de um relator do CARF (nome original disponível apenas para clientes da Turivius). A estatística compara ainda o conselheiro do CARF com a média da sua Turma, Câmara e da Seção como um todo. Com isso o advogado pode ter, em poucos segundos, uma avaliação estatística precisa do quão “fiscalista” ou “pró-contribuinte” é um conselheiro em termos absolutos, mas também comparado com médias dos seus colegas.

Análise preditiva

A ferramenta de jurimetria pode dizer “o que vai acontecer” com um processo ou mesmo antecipa o risco de um terceiro iniciar um litígio contra seu cliente. Na Turivius, somos um pouco céticos sobre esse tipo de análise no atual estágio da tecnologia. Ainda não vimos algoritmos que consigam prever, por exemplo, sentenças judiciais com alto nível de precisão (maior que 95%). Esse tipo de análise é mais factível em processos de massa, como alguns casos de direito do consumidor e direito trabalhista. Além disso, os algoritmos de inteligência artificial têm dificuldade de explicar o porquê da previsão. A explicação de por que chegou nesta previsão é essencial para que o advogado tenha confiança na jurimetria.

Em todo caso, a análise preditiva com alta acurácia, para diferentes áreas jurídicas, e com explicação de como se chegou àquela previsão, é uma espécie de Santo Graal da jurimetria.

Prevendo resultado de um litígio tributário

A canadense BlueJ afirma conseguir prever o resultado de um litígio tributário com 90% de precisão (ou seja, prevê corretamente 9 em cada 10 casos). Para isso, basta que o usuário complete um formulário informando o que é o seu caso e alguns outros parâmetros. Ao final, o usuário recebe a previsão do resultado, uma explicação e uma lista de casos semelhantes.

A canadense BlueJ afirma conseguir prever o resultado de um litígio tributário nos EUA com 90% de precisão.

Análise preditiva para redução de riscos jurídicos

Por exemplo, a americana Intraspexion “prevê” o risco de uma empresa ser acionada judicialmente por, por exemplo, caso de assédio sexual, discriminação ou corrupção. Essa previsão serve como um early warning para a empresa. A startup treina redes neurais para ler milhares de documentos, como e-mails trocados entre os funcionários. A partir da leitura desses documentos, a Intraspexion identifica comunicações que podem estar associadas à inconformidade por parte de empregados da empresa, gerando alertas para os gestores, que, assim, podem intervir na situação e prevenir uma liability jurídica.

A intraspexion lê documentos da empresa, como emails trocados por funcionários, e gera alertas para riscos jurídicos, corrupção e assédio sexual

Para além dos escritórios: Jurimetria e ciência jurídica

A jurimetria ajuda entender melhor a “cabeça” do juiz em uma perspectiva comportamental. Vários estudos tentam achar quais fatores influenciam a decisão de um magistrado. Esses fatores podem ser uma suposta exaustão mental, em que juízes tendem a optar mais pela simplicidade do status quo depois de terem feito uma série de deliberações cansativas. Magistrados também tendem a mostrar aversão ao dissenso. Um estudo dos votos dos ministros do STF mostra como cai a probabilidade de um voto divergente quando uma maioria já foi formada. Vejamos como análises quantitativas rigorosas foram muito além do “achismo” para mostrar quais fatores determinam decisões judiciais.

Como funciona a cabeça de um juiz? 

Uma das mais conhecidas aplicações de técnicas estatísticas no direito foi feita por professores da Columbia University e Ben Gurion University de Israel. Os autores analisaram mais de mil decisões para testar quantitativamente a hipótese do “formalismo legal”, segundo a qual os juízes decidem deliberações racionais sobre os caso, contra a hipótese do “realismo legal”, segundo a qual fatores psicológicos, políticos e sociais influenciam decisões judiciais (Danziger et al. 2011). Os resultados chamaram a atenção de muita gente. Os autores concluíram que a probabilidade de juízes concederem o pedido de liberdade condicional era muito maior logo no início do dia ou logo após a pausa para um cafezinho, como mostra o gráfico abaixo. A explicação seria que, ao final de uma sessão de trabalho e de tomar diversas decisões em série, os juízes encontrariam sua energia mental esgotada. A fadiga os levava a optar pelo status quo e evitar deliberações mais elaboradas sobre a concessão da liberdade condicional.

Probabilidade de conceder liberdade condicional diminui quanto mais tempo o juiz fica sem ter um intervalo para um cafézinho. Os círculos representam pausas no trabalho do juiz. Note que a proporção de decisões favoráveis (eixo vertical) é a maior logo após os intervalos e caem significativamente até o próximo intervalo. Fonte: retirada de Danziger et al. (2011).

Você pensou em correr para o telefone e reagendar o despacho marcado para logo antes do almoço, quando o magistrado está com fome? Vá com calma, não chegue a essa conclusão tão rápido…

Em um estudo subsequente, publicado no mesmo de 2011, outro grupo de pesquisadores fez entrevistas e estudos qualitativos com membros do sistema prisional israelenses e coletaram mais dados. (Weinshall-Margel and John Shapard, 2011)

Eles descobriram que, na verdade, os presos que não tinham um advogado eram os últimos da fila nos julgamentos, colocados geralmente logo antes do intervalo. Logo, o que de fato estava determinando a negação da liberdade condicional não era apenas a exaustão mental dos juízes, mas sim a ausência de auxílio legal para alguns presos. O estudo revelou que os presos sem um advogado presente tinham liberdade condicional concedida 15% das vezes, enquanto esse número saltava para 35% das vezes quando o preso tinha um advogado ao seu lado.

Esse debate sobre sentenças em prisões israelenses ilustra bastante as vantagens e os riscos da jurimetria. Jurimetria não é uma panaceia e não substitui análises qualitativas. Ou seja, o conhecimento tradicional sobre como funciona a sistemática dos julgamentos é crucial. Foi assim que os últimos pesquisadores atualizaram as conclusões dos primeiros. Mas mesmo os estudos quantitativos revelaram informações e instigaram debates que seriam simplesmente inexistentes sem a análise estatística do direito. O debate acima nos permitiu ir além do “achismo” pela coleta e análise sistemática de dados.

O debate entre esses dois papers ilustra um dos  principais potenciais da jurimetria: oferecer ao advogado mais uma ferramenta para ir além de uma impressão baseada apenas na sua experiência individual

O Supremo Tribunal Federal e a aversão ao dissenso

O uso da jurimetria nas Ciências Jurídicas também tem aplicações interessantes no Brasil. Na sua tese de doutorada na FGV, o economista Felipe Lopes testa o peso do dissenso entre juízes tomando decisões colegiadas (Lopes 2019) . O dissenso por apresentar voto divergente implica carga de trabalho maior e custos reputacionais. Por isso, os juízes tendem a evitar o dissenso mesmo quando discordam da opinião predominante entre os pares.

Felipe testou essa hipótese olhando para os ministros do STF. Os ministros que votam após uma maioria ser formada sabem que seu voto não alterará o resultado da decisão colegiada. Felipe revisou decisões colegiadas do Supremo entre os anos de 1990 e 2015 e mostrou que ministros que votam depois da formação de uma maioria têm uma probabilidade muito menor de dar um voto divergente.

O futuro da jurimetria: integração com busca jurisprudencial

Uma tendência observada entre as aplicações comerciais de jurimetria é que há uma tendência para integrar o Legal Data Analytics com sistemas de buscas por precedentes. Essa integração já existe nos produtos da Blue J, Lex Machina e Ravel.

A ideia é que o profissional já receba insights estatísticos ao mesmo tempo em que faz a busca jurisprudencial. Existem inúmeras vantagens nessa integração. Primeiro, ela poupa tempo: você não precisa dividir sua atenção entre uma ferramenta de busca e outra de jurimetria. Segundo, ao integrar as duas soluções, o software pode sugerir quais as estatísticas às quais você deve estar atento dado o tema que está pesquisando. Por exemplo, ele pode mostrar quantas vezes aquele precedente é citado por outras sentenças ou dar uma análise estatística das decisões do magistrado relator daquele acórdão.

Essa foi exatamente o princípio de criação da  Plataforma Turivius: integrar pesquisa jurisprudencial com jurimetria. Assim, o nosso usuário pode naturalmente começar a se familiarizar com a jurimetria ao mesmo tempo que ele usa um sistema de busca inteligente por precedentes. Mais rápido, prático e menos custoso para o usuário. Caso queira entender melhor como funciona, é só clicar no link abaixo.


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Nesse segundo artigo do nosso Guia da Jurimetria nós apresentamos as tecnologias que possibilitaram o “ressurgimento” da jurimetria nos últimos anos.  Você também viu os principais exemplos de jurimetria disponíveis no Brasil e no exterior e como os advogados dos principais escritórios americanos já estão usando o que lá é chamado de legal data analytics

No próximo artigo você descobrirá o que os principais advogados brasileiros pensam sobre a jurimetria e quantos deles já usam esse tipo de ferramenta. A Turivius conduziu uma survey exclusiva, em colaboração com estudantes da Escola de Direito da FGV-São Paulo e te apresentará os principaus resultados.

Por fim, e mais importante, você verá quais os cinco passos para começar a usar jurimetria hoje mesmo. 

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Direito e tecnologia: oportunidades para transformar o mundo jurídico

Independente da área jurídica na qual você atua ou planeja atuar, certamente já ouviu falar sobre a importante transformação digital pela qual o mercado está passando. A verdade é que o mundo inteiro vem se digitalizando, e não seria diferente com o Direito.

Não à toa, a pesquisa Legal Technology: looking past the hype, divulgada pela LexisNexis, aponta que, para 75% dos advogados, é essencial que seus escritórios usem tecnologia nos processos. Essas tecnologias devem repassar os benefícios alcançados à equipe, incluindo taxas mais baixas, melhor qualidade nas entregas e tempos de resposta menores. 

No artigo de hoje, falaremos sobre os principais desafios de adaptar a rotina jurídica à tecnologia. Falaremos, sobretudo, a respeito de algumas das inúmeras oportunidades que essa aliança pode trazer para os profissionais da área. 

Direito e tecnologia: desafios

Para termos uma noção concreta do que a união de direito e tecnologia representa, é importante termos em mente um desenho do cenário atual.

Ainda imersa em uma contínua transformação digital, nossa sociedade vem reformulando suas relações pessoais e profissionais, bem como redesenhando as formas de prestar serviços.

A seguir, abordamos quatro desafios que devem servir como motivadores para o desenvolvimento de um trabalho jurídico com o suporte da tecnologia.

O mundo VUCA

O primeiro fator nossa lista é, na verdade, um atributo da sociedade atual. 

A intensidade das transformações pelas quais o mundo passou ao longo dos últimos anos gerou, inclusive, um acrônimo, popularmente difundido no segmento dos negócios, para defini-lo: o mundo VUCA. 

Trata-se da abreviação de Volátil, Incerto (ou Uncertain), Complexo e Ambíguo, e resume as características mais marcantes do nosso ambiente cada vez mais “incontrolável”. 

Em artigo para a Forbes, o consultor estratégico Jeroen Kraaijenbrink traz uma breve explicação sobre cada um dos termos, o que nos ajuda a dimensionar o primeiro grande desafio de aliar direito e tecnologia: compreender o contexto. 

  • Volatilidade: para o autor, volatilidade é um termo ligado à velocidade de transformação na indústria, mercado ou no mundo em geral. Está associado a flutuações na demanda, turbulências constantes e no curto prazo para a execução de tarefas. 
  • Incerteza: redução da capacidade do mercado de prever o futuro. Com a aceleração das mudanças, o imprevisível e imponderável é acentuado. Podemos afirmar que a frequência de cisnes negros, ou seja, eventos imprevisíveis e impensáveis, também aumenta. A crise do novo coronavírus de 2020 é um grande exemplo aqui. 
  • Complexidade: montante cada vez maior de fatores que devem ser levados em conta para compreender contextos e tomar decisões. 
  • Ambiguidade: o conceito faz referência à dificuldade de interpretar claramente os fatos. Uma situação pode ser ambígua por falta ou excesso de informação, o que leva a conclusões contraditórias ou incompletas. 

 

Novos problemas, novas soluções

Por fim, o último desafio da união entre direito e tecnologia é encontrar as ferramentas certas para enfrentar os novos problemas originados no mundo atual (crimes cibernéticos, fraudes em sistemas tributários, vínculos empregatícios frágeis ou inexistentes, entre outros). 

O professor Jeremias Prassl, da Universidade de Oxford, em seu artigo para o relatório The Gig Economy, examina como o direito e a tecnologia podem ser usados juntos para resolver um grande número de problemas sociais e legais criados pelas novas plataformas.

Para o professor, é essencial que haja uma adaptação das leis em função dos novos problemas surgidos a partir da reformulação da sociedade trazida pela digitalização. Para ele, ainda, “a tecnologia existe justamente para que tais soluções sejam implementadas”. 

Direito e tecnologia: oportunidades

Conhecer os principais desafios de aliar direito e tecnologia no mundo atual serve, principalmente, como mola propulsora para encontrar oportunidades. 

Por serem ferramentas extremamente ágeis, fluídas e, muitas vezes, integradas, as tecnologias aplicadas ao Direito possibilitam ressignificar a forma de prestar serviços e encontrar resultados. 

A seguir, listamos (mais) algumas das oportunidades e benefícios de trabalhar direito e tecnologia de forma integrada. 

Trabalhar com equipes multidisciplinares

Um dos maiores equívocos de quem incorpora a tecnologia ao ambiente de trabalho é imaginar que esta é uma oportunidade para abrir mão da inteligência humana. 

Na verdade, o investimento em direito e tecnologia é potencializado se vier acompanhado da criação de uma equipe multidisciplinar, com especialistas em diversos segmentos jurídicos e administrativos. 

Com profissionais multifacetados, é possível conduzir casos com pontos de vista diferenciados. As discussões ficam mais ricas se pautadas em informações fornecidas, por exemplo, por uma ferramenta de tecnologia no direito especializada em inteligência de dados. 

Trabalhar remotamente

Outro benefício de unir direito e tecnologias da informação é a criação de uma rotina de trabalho flexível, com possibilidade de atuação remota. 

O portal Law.com, de informações jurídicas, conta que, depois da popularização do modelo de trabalho por startups do Vale do Silício, até mesmo as forças de trabalho tradicionais começaram a trabalhar remotamente. Diante dessa tendência, alguns escritórios de advocacia já começam a caminhar de acordo com o exemplo do Vale do Silício. Essa tendência foi fortemente acelerada em 2020 com a pandemia do novo coronavírus, que obrigou advogados/as a se adaptarem rapidamente ao trabalho remoto.

Equipamentos eletrônicos cada vez mais compactos (como tablets, celulares e laptops) e ferramentas digitais acessíveis de qualquer lugar permitem que advogados deixem o ambiente do escritório para fazer seu trabalho em casa ou mesmo em viagens. 

Tornar pesquisas mais simples e assertivas

Criar interface entre direito, tecnologia e inovação é abrir portas para utilizar todo o potencial dos novos recursos em prol de uma rotina de trabalho mais dinâmica e muito mais assertiva. 

Usando uma plataforma digital como a da Turivius, é possível integrar soluções de pesquisa jurisprudencial, jurimetria e gestão do conhecimento jurídico em uma só ferramenta. É uma forma de investir tempo naquilo que realmente importa: estudar teses e debates jurídicos,   encontrar soluções para atender os clientes da melhor forma possível e captar novos clientes.

Novas plataformas, softwares e sistemas de comunicação estão transformando a relação entre direito e tecnologia. Muitas empresas e estudantes da área já estão abraçando a transformação digital. 

É fundamental, entretanto, saber escolher, dentre as possibilidades disponíveis no mercado, aquelas que oferecem a base tecnológica adequada às suas necessidades enquanto profissional. 

Se você está em busca de uma introdução ao mundo jurídico digital, peça uma demonstração gratuita da plataforma Turivius e entenda como funciona nossa solução para melhorar a rotina do advogado. 


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