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Como enriquecer sua Legal Opinion com dados estatísticos

É comum surgirem situações no âmbito jurídico em que a opinião de um especialista se faz necessária para encontrar a solução mais adequada. Por isso, elaborar um parecer jurídico baseado em dados estatísticos da jurisprudência e da jurimetria é essencial para ilustrar uma opinião ou ponto de vista, para que o interlocutor compreenda mais facilmente o posicionamento do parecerista.

Veja nesse artigo como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos da jurimetria que irão auxiliar na argumentação e na compreensão do relatório.

A importância dos dados estatísticos no parecer jurídico

O parecer jurídico, ou legal opinion, é uma análise elaborada por profissionais como juristas públicos ou particulares, consultores jurídicos ou advogados, e tem como propósito esclarecer dúvidas ou controvérsias sobre um determinado tema.

Por se tratar de um documento de cunho explicativo, um dos pontos principais para a argumentação de um parecer jurídico é a clareza. 

Para isso, além do vasto conhecimento sobre o tema, o parecerista também deve utilizar dados consistentes que sejam capazes de exemplificar e justificar o seu ponto de vista.

Neste sentido, a pesquisa de jurisprudência se faz naturalmente necessária para redigir o relatório, pois este é um dos principais pilares nos quais o prolator se apoiará para amparar o seu posicionamento.

Por fim, qualificar, quantificar e citar decisões de precedentes com dados estatísticos é importante não só para justificar um ponto de vista, mas também para que o parecerista se faça entendido com clareza, eliminando qualquer brecha para interpretações ambíguas.

O uso da tecnologia aplicada ao Direito

Graças ao avanço da área tecnológica aplicada ao Direito, hoje podemos contar com diversas ferramentas que facilitam o processo de análise e pesquisa por precedentes. 

A jurimetria, por exemplo, é um ramo da análise jurídica que tem se tornado cada vez mais importante na prática profissional de advogados e departamentos jurídicos.

Para os que ainda não estão familiarizados com o conceito, o termo foi cunhado em 1948 pelo jurista americano Lee Loevinger, que define a jurimetria como a aplicação de teoria da comunicação e informação para expressões legais, o uso da lógica matemática na lei e a formulação do cálculo de probabilidades legais (Loevinger, 1963).

Nos dias de hoje, a área já conta com uma instituição sem fins lucrativos que tem como objetivo incentivar o uso e desenvolvimento da jurimetria. A Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ)”, define jurimetria como “a estatística aplicada do Direito”, que permite “enxergar o judiciário como um grande gerador de dados que descrevem o funcionamento completo do sistema”.

Para saber mais sobre o conceito e a importância da jurimetria no mercado jurídico atual, leia nosso artigo ou baixe o nosso material Jurimetria e Direito: guia definitivo. 

Na prática, a jurimetria vai para além das estatísticas convencionais, mostrando com precisão como as cortes decidiram sobre o tema da sua pesquisa ao longo dos anos, além de informações como:

  • Posição dominante dos tribunais;
  • Tendências ou padrões jurisprudenciais;
  • Variação da jurisprudência ao longo dos anos;
  • Tempo médio de duração de um processo;
  • Quais as chances de sucesso de um processo,
  • Quais cortes são mais receptivas àquele tema.

A jurimetria poderia, inclusive, fazer uma análise de regressão e, a partir dela, ponderar quais são as variáveis que melhor explicam o resultado de um processo (qualidade das evidências, o próprio magistrado, etc). 

Dessa forma, a jurimetria pode identificar tendências fundamentadas na base legal que podem auxiliar não só na elaboração da argumentação de um parecer jurídico, mas também a evidenciar um cenário mais amplo sobre o tema, contribuindo para a uma análise mais coerente do parecerista.

Leia também: Descubra 4 razões para usar a jurimetria no seu escritório de advocacia

Como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos

A tecnologia já faz parte do Direito e, tudo indica, que ela será indispensável para a prática jurídica do futuro.

Um estudo realizado pela FGV em 2018, evidenciou duas constatações importantes sobre o uso de tecnologia em escritórios de advocacia:

  • Há desigualdades significativas no uso de tecnologia, geralmente explicadas pelo porte dos escritórios, medido em número de advogado(a)s atuantes. (FGV, 2018, p.11)
  • Há amplo espaço para implementação de ferramentas tecnológicas avançadas, diante dos indícios de alta repetitividade dos trabalhos, que se verificam na presença frequente do contencioso de massa entre as atividades dos escritórios e no uso disseminado de modelos. (FGV, 2018, p.11)

A partir desses dados, podemos concluir que o uso de tecnologia, como um software jurídico, por exemplo, é um diferencial que não só irá agregar destaque perante ao mercado, mas também irá maximizar a capacidade produtiva e a qualidade de entrega dos escritórios.

A Turivius é um software de pesquisa jurisprudencial com jurimetria integrada, que permite centralizar todo o processo da pesquisa jurisprudencial em uma única solução.

Além disso, a ferramenta também disponibiliza dashboards e gráficos de jurimetria com dados sobre tendências jurisprudenciais e análise comportamental dos julgadores ao mesmo tempo em que você realiza a busca.

Para ter acesso aos dados estatísticos de jurimetria e utilizá-los no seu parecer jurídico, basta pesquisar palavras chaves sobre o tema de interesse em nossa plataforma.

Em nosso exemplo, utilizamos a busca por “icms” e “base de cálculo” e pis.

Como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos 01

Com a pesquisa feita, você já terá acesso à jurimetria da busca logo no início da página, como mostra a figura abaixo. A partir dele, você poderá analisar a quantidade de decisões ao longo do ano, bem como a jurisprudência do tema de acordo com o tribunal de interesse.

Como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos 02

Para utilizar qualquer precedente em seu parecer jurídico, basta clicar em “citar”. O texto será copiado automaticamente para a área de transferência já com a formatação correta. 

Como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos 03

Vá até o seu documento principal, clique com o botão direito do mouse e selecione “colar”.

Como enriquecer seu parecer jurídico com dados estatísticos 04

Utilizando os dados da pesquisa de jurisprudência aliada à jurimetria, você terá muito mais poder argumentativo baseado em dados estatísticos para fomentar sua análise e conferir coerência e relevância ao seu ponto de vista.

Bibliografia:

  • Jurimetria e Direito: o que é e 5 razões para utilizar – Guia completo (parte 1) – Turivius.” Turivius, <https://www.turivius.com/portal/jurimetria-e-direito-o-que-e-porque-e-como-utilizar-guia-completo-parte-1/>. Acesso em 20 de abril, 2022.
  • Limoeiro, Danilo, e Kenzo, Guilherme. Jurimetria e Direito: Guia definitivo. 2020.
  • Loevinger, L. (1948). Jurimetrics–The Next Step Forward. Minn. L. Rev., 33, 455.
  • Loevinger, L. (1963). Jurimetrics: The methodology of legal inquiry. Law and contemporary problems, 28(1), 5-35.
  • Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (FGV Direito SP). Os Escritórios estão Preparados para a Advocacia baseada em Tecnologia?, 2018, p.11.
  • “ABJ | O que é jurimetria?”. Associação Brasileira de Jurimetria, <https://abj.org.br/conteudo/jurimetria/>. Acesso em 20 de abril, 2022.
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Advocacia do futuro Dicas de carreira Direito e Tecnologia Educação e ensino jurídico

Os rumos da advocacia digital: 6 práticas que você precisa dominar

Com a transformação digital, o mundo ressignificou suas relações interpessoais, de trabalho e de serviços. O surgimento de startups e de modelos de negócios baseados em inovação representou um verdadeiro revés em segmentos tradicionais do mercado, como o direito, que se viu caminhando para um novo rumo: o da advocacia digital. 

Com o aumento da digitalização e automatização de procedimentos, a forma como serviços jurídicos são prestados está mudando, e muito se questiona sobre o papel dos profissionais de direito em toda essa transformação. 

Afinal, o que é preciso saber? Como as novas tecnologias vão beneficiar o trabalho do advogado? Como incorporar novas tecnologias à rotina? 

Continue lendo este artigo para descobrir.

O que é advocacia digital?

Antes de falarmos sobre os desdobramentos da advocacia digital e sobre seus impactos na rotina do profissional, é preciso termos o conceito claro. 

A advocacia digital oferece novas soluções jurídicas por meio da tecnologia. A prática reúne ferramentas e estratégias digitais que transformam a forma que você:

  • Adquire novos clientes, 
  • Aprende sobre os temas jurídicos, e
  • Executa e entrega os seus serviços.  

Com isso, você executa de forma diferente tarefas relacionadas ao marketing do seu escritório, seus estudos e do seu time, a forma de se relacionar com clientes, e até a pesquisa jurídica e a forma de analisar de dados complexos do Judiciário. 

É essencial compreender que a advocacia digital surge e se consolida como uma ferramenta de apoio, e não de substituição à expertise humana. A ideia é que as soluções digitais sejam conjugadas ao trabalho do advogado, criando, assim, condições para o alcance de resultados mais eficientes, ágeis e completos.

O que um advogado digital precisa conhecer? 

Para atingir um status de integração plena à advocacia digital, é preciso conhecer algumas ferramentas e estratégias, e, principalmente, saber como fazê-las trabalhar a seu favor. 

Conheça abaixo as 6 práticas que você deve dominar

1. Técnicas de marketing digital

Um dos impactos mais perceptíveis da transformação digital é a presença online de uma porcentagem expressiva da população brasileira: segundo a pesquisa TIC Domicílios, 70% dos brasileiros — ou 126,9 milhões de pessoas — faz uso da internet. 

Isso significa que para ser visto e encontrado por potenciais clientes, é preciso conhecer técnicas básicas de marketing digital. A principal delas é a presença ativa nas redes sociais. LinkedIn, Facebook e Instagram são os canais convencionais, mas destaca-se quem vai além, e encontra seu espaço em mídias como o YouTube, os podcasts e o e-mail marketing. 

A migração dos advogados para as redes sociais também reforça um importante movimento muito ligado à transformação digital: a democratização do conhecimento jurídico. Com o aumento do nível de exigência da população sobre todos os serviços consumidos, cresce também a necessidade de entender mais sobre o que lhes é oferecido, bem como de atestar, por experiência própria, a credibilidade do profissional contratado. 

2. Digitalização de documentos e armazenamento em nuvem 

O tempo de grandes bibliotecas físicas e gavetas lotadas de documentos nos escritórios está com os dias contados. Uma tendência de conhecimento obrigatório para quem está entrando no mundo da advocacia digital é o armazenamento em nuvem. 

A tecnologia, que permite o acesso a arquivos e dados de qualquer lugar, a qualquer hora, cresce a cada ano em popularidade no meio jurídico, como comprova a pesquisa TechReport, divulgada em 2017 pela American Bar Association. 

O relatório mostra que o número de advogados utilizando tecnologia em nuvem cresceu 40% entre 2016 e 2017, e que a tecnologia é popular entre profissionais que atuam solo ou em pequenas empresas. 

Entre os benefícios da ferramenta listados pelos entrevistados, estão: 

  • facilidade de acesso,
  • backup de dados eficiente,
  • baixo custo, e
  • despesas previsíveis.

Essa tendência deve crescer ainda mais com o crescimento da possibilidade de trabalho remoto dos advogados. Ao trabalharem de casa, os advogados precisam poder acessar e arquivar documentos na nuvem. 

A Turivius oferece uma ferramenta que permite a gestão digitalizada de todo o conhecimento jurisprudencial. Com as Coleções, o advogado arquiva facilmente os resultados de sua pesquisa em pastas virtuais organizadas por temas, salvas na nuvem. 

 

Ele pode compartilhar essas pastas com seu time e elas são atualizadas automaticamente. É uma espécie de Pinterest para advogados. 

Clique no botão abaixo se você quiser conhecer melhor o sistema de coleções da Turivius.

3. Ferramentas de cibersegurança

Quando falamos sobre ambientes virtuais, inevitavelmente falamos também sobre vulnerabilidade de dados. 

Por sorte, na mesma medida em que são aprimoradas as técnicas de violação de dados, são fortalecidas as alternativas para protegê-los. 

Face a isso é imprescindível que, ao migrar para a advocacia digital, o profissional conheça e utilize mecanismos de proteção digital, como o blockchain e o gerenciamento de identidades e acessos, por exemplo, para assegurar a integridade das informações armazenadas no sistema. 

4. Business Intelligence Jurídico

Você já ouviu falar em Business Intelligence (BI)? A expressão, traduzida como Inteligência de Negócios, abarca os softwares de análise de dados gerenciais. É mais uma opção de tecnologias que as tecnologias digitais oferecem aos profissionais que adotam a prática da advocacia digital. 

A inteligência de negócios ajuda, principalmente, a analisar dados que resumem o desempenho financeiro do mercado, encontram custos desnecessários e áreas com potencial para aumentar receita e lucro. Por exemplo, você sabe quais suas margens para cada cliente e ou a distribuição do seu faturamento por tipo de processo?  As ferramenta de  BI podem avaliar essas métricas com mais precisão, detalhamento e menos tempo. Assim você otimiza a saúde financeira do seu escritório. 

Lembre-se: o que não medido não é melhorado. 

5. Escritórios virtuais

O quinto item da lista de tendências da advocacia digital, é, na verdade, uma consequência do uso das ferramentas pontuadas acima. 

Os escritórios virtuais são uma resposta à desvinculação do espaço físico para a prestação de serviços jurídicos, já que, com dispositivos móveis e tecnologia em nuvem, é possível trabalhar literalmente de qualquer lugar, a qualquer hora. 

Para as empresas, o trabalho remoto só tem a acrescentar. Além de reduzir custos fixos, como contas de energia e aluguel de espaços, a mobilidade do escritório ainda permite incorporar à equipe profissionais qualificados de qualquer lugar do mundo. 

Já para os advogados, é uma oportunidade para buscar o tão sonhado equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal com rotinas de trabalho mais flexíveis. 

Depois da crise da COVID19 em 2020, os escritórios virtuais tendem a aumentar pois trabalho remoto passará a ser algo mais comum entre profissionais, inclusive para além do mundo jurídico. 

6. Jurimetria

Por fim, a última ferramenta essencial para compreender a advocacia digital é a aplicação de análises estatísticas ao direito. Como explicamos no nosso guia completo da jurimetria e direito, como consequência da revolução dos dados digitais e da inteligência artificial

Nesse outro artigo sobre jurimetria, explicamos as 5 razões pelas quais a jurimetria pode aumentar a competitividade dos escritórios na advocacia digital, que resumimos abaixo:

 

  1. Complementa a expertise e conhecimento tradicional com análise quantitativa rigorosa,
  2. Dá nova perspectiva em temas que você (acha que) domina bem,
  3. A jurimetria poupa tempo. Tempo é mais do que dinheiro: é o seu bem mais escasso,
  4. Pode ser sua porta de entrada ao Legal Design, e
  5. O uso da jurimetria pode aumentar seu faturamento por atrair mais clientes.

Preparamos para você esse guia completo sobre jurimetria e uma vídeo-aula para te introduzir ao assunto

E se você quiser saber mais sobre soluções para a advocacia digital, te convidamos para conhecer melhor a plataforma da Turivius.  Ela integra soluções de pesquisa jurisprudencial inteligente, jurimetria e gestão do conhecimento jurídico em uma única ferramenta. 

Nossa ferramenta, integrada ao conceito de advocacia digital, permite aos profissionais investirem tempo no que realmente importa: melhorar sua competitividade e faturamento atender melhor o cliente. 

Quer conhecer todas as funcionalidades da Turivius na prática? Então peça uma demonstração gratuita

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Advocacia do futuro Direito e Tecnologia Jurimetria

Jurimetria e Direito: Guia completo – Parte 2 – exemplos de uso

Essa série de artigos é um guia  completo sobre jurimetria e como a análise quantitativa do Direito pode ajudar você e seu escritório a vencerem em um mercado cada vez mais competitivo. Foi escrito pelos co-fundadores da Turivius Legal Intelligence, uma startup que desenvolve aplicações de inteligência artificial ao direito. Somos ex-pesquisadores pela USP, FGV, Oxford e MIT, com diplomas de mestrado e PhD, e conhecimento das áreas de direito, estatística, ciência política e computação.

Aqui você vai entender o conceito de jurimetria, como a jurimetria surgiu, as tecnologias que possibilitam o seu avanço, como ela pode melhorar a competitividade e a receita do seu escritório, e quais as aplicações disponíveis hoje no Brasil e no mundo. Você vai descobrir também o que advogados de alguns dos principais escritórios do Brasil pensam sobre a jurimetria olhando os resultados de uma survey exclusiva que a Turivius fez em conjunto com alunos da Escola de Direito da FGV. Abordaremos os cinco passos para começar a usar jurimetria hoje, de forma prática e sem hype.

Ao final da sequência de posts, você estará habilitado a entender como a estatística pode reinventar o direito e como estar bem posicionado para aproveitar todas as oportunidades que a jurimetria vai te oferecer.

No primeiro artigo, explicamos o conceito de jurimetria e as 5 razões para usar jurimetria. 

Neste segundo artigo da série focaremos em exemplos reais da jurimetria. Apresentaremos os 4 principais tipos de aplicações de análises quantitativas do Direito e daremos exemplos de uso no Brasil e no exterior. Você aprenderá como os advogados dos principais escritórios americanos já estão usando o que lá é chamado de legal data analytics e as vantagens que eles encontram nessas técnicas. 

Além das aplicações comerciais, você também verá exemplos de estudos científicos que usam análises quantitativas para jogar nova luz sobre debates de ciência jurídica. Por exemplo, qual é o melhor horário do dia para você agendar o seu ‘embargo auricular’? É verdade que juízes têm aversão ao dissenso e tendem a votar com a maioria? Dê aqui seu palpite e nós apresentaremos as evidências ao final do texto. 

Mas antes disso, falaremos também das tecnologias que possibilitaram o ressurgimento da jurimetria. Afinal, como vimos no primeiro artigo da série, Loevinger cunhou o termo nos anos 1940. Por que toda discussão sobre jurimetria foi retomada só na década de 2010?

A tecnologia por trás da jurimetria

Dois fatores principais explicam a atual ‘renascença’ do termo: a revolução dos dados e a revolução da inteligência artificial.

A revolução dos dados

A matéria-prima de qualquer análise quantitativa, jurimetria inclusive, são os dados. O crescimento da quantidade de dados digitais disponíveis nos últimos anos foi exponencial. Só na última década, ou seja, ainda depois da Revolução Digital, a quantidade de dados gerados no mundo por ano cresceu de 2 zettabytes (ou seja, 2 trilhões de gigabytes) para 50 zettabytes, um crescimento de 25 vezes em uma década. A projeção é de que esse volume quintuplique até 2025.

A quantidade de dados digitais disponíveis cresceu 25 vezes nos últimos 10 anos e ainda deve triplicar nos próximos 5 anos. Fonte: Statistica Data Platform

Estão incluídos nessa medida 65 bilhões de mensagens por WhatsApp, 254 bilhões de e-mails enviados, 3.5 bilhões de buscas no Google, 95 milhões de fotos e vídeos compartilhados no Instagram. Isso em um único dia, segundo dados da Raconteur. É claro, a maioria desses dados não tem nada a ver com a atividade judicial. Colocamos aqui apenas para que você tenha ideia crescimento acelerado do que comumente é conhecido Big Data.

Obviamente, atividades legais não passaram incólumes à revolução dos dados. Na última década, as cortes brasileiras iniciaram a digitalização de seus processos e suas decisões passaram a ser publicadas em meio digital. Essas publicações digitais são a matéria-prima que alimenta os serviços de jurimetria.

 

A revolução da inteligência artificial

Mas os dados por si só não são suficientes para explicar a renascença da jurimetria. O que importa é o tipo de pergunta que eles podem responder. Para isso a inteligência artificial fez uma grande contribuição em duas frentes.

Primeiro, apenas coletar um volume enorme de base de dados não gera nenhuma análise. Os dados precisam ser estruturados, ou seja, organizados de uma forma que se possa fazer análises estatísticas sobre eles. Por exemplo, um arquivo em PDF com o acórdão de um tribunal não gera nenhuma análise estatística. É necessário separar e tabular informações, tais como as partes do processo, quem foi o relator, qual a demanda, como votou cada julgador, qual foi a demanda, qual o resultado final, etc.

Existem diversas formas de estruturar esses dados. Mas uma técnica importante é o uso de machine learning e deep learning. Por exemplo, aqui na Turivius o nosso robô Vision usa uma combinação de redes neurais recursivas e processamento de linguagem natural para classificar se o resultado de uma decisão foi contrária ou favorável ao contribuinte (ou alguma outra categoria intermediária)

Segundo, as técnicas de machine learning também permitem fazer perguntas mais complexas aos dados. Essas técnicas matemáticas permitem análises preditivas, ou seja, inferências sobre qual vai ser o resultado de um processo (embora aqui na Turivius sejamos um pouco mais cético sobre a acurácia dessas análises no estágio atual da tecnologia). Permitem também a aplicação de técnicas de processamento de linguagem natural (NLP, Natural Language Processing). O NLP, de forma resumida, é a tradução matemática de textos, possibilitando a interpretação de um volume gigantesco de textos em poucos segundos. Visto que o texto é a ferramenta fundamental do advogado, o NLP é especialmente interessante para a área jurídica.

Assim, embora o chamado de Loevinger para o uso da jurimetria tenha ocorrido décadas atrás, é natural que só nos últimos anos essa área do direito tenha aflorado. Isso porque as duas condições necessárias para o renascimento da jurimetria ainda não estavam postas. Precisávamos da ‘matéria-prima’ – os dados digitais em larga escala -, e de ‘máquinas’ para processá-los – os algoritmos  matemáticas que conhecemos como inteligência artificial.

Jurimetria na prática

O Jornal Financial Times recentemente deu grande destaque no uso de jurimetria por grandes bancas advocatícias nos EUA. Startups como Lex Machina, Ravel, Premonition e Blue J estão revolucionando o mercado jurídico anglo-saxão, seja complementando o trabalho de firmas tradicionais, seja permitindo que escritórios de médio porte compitam com grande bancas pelo uso da jurimetria, que lá é chamado de Legal Analytics.

A matéria mostra, por exemplo, como empresas de tecnologia nos EUA monitoram o histórico de decisões de alguns juízes em distritos importantes. Essas ‘legaltechs’ mostram  quantos ações coletivas (class action lawsuits) chegam em um determinado juiz por ano, o percentual de sucesso das ações, a probabilidade de um juiz conceder uma decisão liminar, quais os precedentes mais citados por juiz, a experiência e histórico de sucesso dos advogados em cada lawsuit. etc.  Para o CEO de uma dessas empresas, a maior penetração do Legal Analytics é uma questão de tempo. E quando a prática se popularizar, a questão será sobre a aptidão e competência dos escritórios em trabalhar com análises quantitativas.

 

O jornal britânico Financial Times discute como o Legal Data Analytics tem penetrado o mercado jurídico americano. Crédito da foto: ft.com. Clique na figura para ler a matéria completa (sujeito a paywall).

Nesta seção, ilustraremos algumas das principais aplicações da jurimetria para os escritórios e departamentos jurídicos. Para organizar a discussão, preparamos uma tipologia da jurimetria, separando as aplicações em diferentes categorias, que explicamos no infográfico abaixo. Os detalhes das categorias ficarão claro nas explicações e exemplos a seguir.

Apresentar os 4 tipos de jurimetria

Macro-jurimetria

Esse tipo de estatística mostra uma ‘visão panorâmica’ de estatísticas judiciais. Elas mostram, por exemplo, a quantidade de processos em diferentes tribunais, a quantidade de processos por temas, o percentual de inquéritos solucionados, etc. Esse é o tipo mais básico de jurimetria e são importantes para você ficar atualizado sobre os “grande números” da prática jurídica.

 

A Associação Brasileira de Jurimetria, instituição pioneira da jurimetria no Brasil, tem produzido uma grande quantidade de estudos que são um ótimo exemplo de macrojurimetria. Por exemplo, um dos seus estudos mais interessantes é sobre a persecução penal à corrupção no Brasil. O estudo mostra a quantidade de inquéritos policiais relacionados a crimes de corrupção em diferentes anos e regiões. Os pesquisadores concluem que 46,5% dos inquéritos se referem ao crime de lavagem de dinheiro, que a fase do inquérito leva em média 1 ano e 9 meses, e que, por exemplo, na Justiça Federal do Distrito Federal, 66% das denúncias são arquivadas (Núcleo de Estudos e Políticas Públicas USP e ABJ, 2019)

 

Análise de performance jurídica

Esse tipo de análise mostra a experiência e a perfomance dos advogados e escritórios em certos tipos de litígio. Os litígios podem ser separados por temas, tribunais, ou mesmo juízes. A partir daí, conta-se a frequência de casos em que um determinado advogado ou escritório atuou, bem como quantos desses casos foram vencidos por esse advogado.

 

Essas comparações geram benchmarks de performance para advogados. Assim, você consegue se comparar com a sua concorrência e usar essa estatística como um showcase das suas aptidões e experiências. São usadas também por clientes para avaliarem qual advogado contratar, ou também para avaliar a performance entre diferentes escritórios terceirizados.

A americana Premonition mede a taxa de sucesso de cada advogado ou escritório, por tipo de processo. Clique na imagem para visitar o site da empresa.

Legal Data Insights

Essa é provavelmente a área mais interessante e relevante da jurimetria. Aqui a análise vai complementar a sua expertise e realmente lhe ajudar a cobrir todas as bases para ganhar um caso e o cliente.

As quantidades estatísticas são diversas. A jurimetria pode te dar “carômetros” estatísticos de juízes de primeira instância do TJSP; mostrar o percentual de decisões favoráveis ao contribuinte de um conselheiro do CARF; apresentar o volume de processos sobre uma tese tributária específica  em diferentes tribunais ao longo dos anos e como esses tribunais têm aceitado essa tese; o valor médio de indenizações ao consumidor por tipo de demanda por juízo; a súmula mais frequentemente citado pelo magistrado em suas decisões; dado um tema, qual a linha de argumentação mais bem-sucedida com aquele magistrado; qual o peso da evidência versus argumentação em um determinado tipo de litígio, a probabilidade de um certo tipo de planejamento tributário gerar uma autuação, etc.

Ou seja, as possibilidades para a geração de insights são enormes. As únicas limitações são a disponibilidade de dados e as necessidades dos advogados.

Percentual de decisões contrárias ao contribuinte de um relator do CARF (nome original disponível apenas para clientes da Turivius). A estatística compara ainda o conselheiro do CARF com a média da sua Turma, Câmara e da Seção como um todo. Com isso o advogado pode ter, em poucos segundos, uma avaliação estatística precisa do quão "fiscalista" ou "pró-contribuinte" é um conselheiro em termos absolutos, mas também comparado com médias dos seus colegas.

Análise preditiva

A ferramenta de jurimetria pode dizer “o que vai acontecer” com um processo ou mesmo antecipa o risco de um terceiro iniciar um litígio contra seu cliente. Na Turivius, somos um pouco céticos sobre esse tipo de análise no atual estágio da tecnologia. Ainda não vimos algoritmos que consigam prever, por exemplo, sentenças judiciais com alto nível de precisão (maior que 95%). Esse tipo de análise é mais factível em processos de massa, como alguns casos de direito do consumidor e direito trabalhista. Além disso, os algoritmos de inteligência artificial têm dificuldade de explicar o porquê da previsão. A explicação de por que chegou nesta previsão é essencial para que o advogado tenha confiança na jurimetria.

Em todo caso, a análise preditiva com alta acurácia, para diferentes áreas jurídicas, e com explicação de como se chegou àquela previsão, é uma espécie de Santo Graal da jurimetria.

Prevendo resultado de um litígio tributário

 

A canadense BlueJ afirma conseguir prever o resultado de um litígio tributário com 90% de precisão (ou seja, prevê corretamente 9 em cada 10 casos). Para isso, basta que o usuário complete um formulário informando o que é o seu caso e alguns outros parâmetros. Ao final, o usuário recebe a previsão do resultado, uma explicação e uma lista de casos semelhantes.

 

A canadense BlueJ afirma conseguir prever o resultado de um litígio tributário nos EUA com 90% de precisão.

Análise preditiva para redução de riscos jurídicos

Por exemplo, a americana Intraspexion “prevê” o risco de uma empresa ser acionada judicialmente por, por exemplo, caso de assédio sexual, discriminação ou corrupção. Essa previsão serve como um early warning para a empresa. A startup treina redes neurais para ler milhares de documentos, como e-mails trocados entre os funcionários. A partir da leitura desses documentos, a Intraspexion identifica comunicações que podem estar associadas à inconformidade por parte de empregados da empresa, gerando alertas para os gestores, que, assim, podem intervir na situação e prevenir uma liability jurídica.

A intraspexion lê documentos da empresa, como emails trocados por funcionários, e gera alertas para riscos jurídicos, corrupção e assédio sexual

Para além dos escritórios: Jurimetria e ciência jurídica

A jurimetria ajuda entender melhor a “cabeça” do juiz em uma perspectiva comportamental. Vários estudos tentam achar quais fatores influenciam a decisão de um magistrado. Esses fatores podem ser uma suposta exaustão mental, em que juízes tendem a optar mais pela simplicidade do status quo depois de terem feito uma série de deliberações cansativas. Magistrados também tendem a mostrar aversão ao dissenso. Um estudo dos votos dos ministros do STF mostra como cai a probabilidade de um voto divergente quando uma maioria já foi formada. Vejamos como análises quantitativas rigorosas foram muito além do “achismo” para mostrar quais fatores determinam decisões judiciais.

Como funciona a cabeça de um juiz? 

Uma das mais conhecidas aplicações de técnicas estatísticas no direito foi feita por professores da Columbia University e Ben Gurion University de Israel. Os autores analisaram mais de mil decisões para testar quantitativamente a hipótese do “formalismo legal”, segundo a qual os juízes decidem deliberações racionais sobre os caso, contra a hipótese do “realismo legal”, segundo a qual fatores psicológicos, políticos e sociais influenciam decisões judiciais (Danziger et al. 2011). Os resultados chamaram a atenção de muita gente. Os autores concluíram que a probabilidade de juízes concederem o pedido de liberdade condicional era muito maior logo no início do dia ou logo após a pausa para um cafezinho, como mostra o gráfico abaixo. A explicação seria que, ao final de uma sessão de trabalho e de tomar diversas decisões em série, os juízes encontrariam sua energia mental esgotada. A fadiga os levava a optar pelo status quo e evitar deliberações mais elaboradas sobre a concessão da liberdade condicional.

Probabilidade de conceder liberdade condicional diminui quanto mais tempo o juiz fica sem ter um intervalo para um cafézinho. Os círculos representam pausas no trabalho do juiz. Note que a proporção de decisões favoráveis (eixo vertical) é a maior logo após os intervalos e caem significativamente até o próximo intervalo. Fonte: retirada de Danziger et al. (2011).

Você pensou em correr para o telefone e reagendar o despacho marcado para logo antes do almoço, quando o magistrado está com fome? Vá com calma, não chegue a essa conclusão tão rápido…

Em um estudo subsequente, publicado no mesmo de 2011, outro grupo de pesquisadores fez entrevistas e estudos qualitativos com membros do sistema prisional israelenses e coletaram mais dados. (Weinshall-Margel and John Shapard, 2011)

Eles descobriram que, na verdade, os presos que não tinham um advogado eram os últimos da fila nos julgamentos, colocados geralmente logo antes do intervalo. Logo, o que de fato estava determinando a negação da liberdade condicional não era apenas a exaustão mental dos juízes, mas sim a ausência de auxílio legal para alguns presos. O estudo revelou que os presos sem um advogado presente tinham liberdade condicional concedida 15% das vezes, enquanto esse número saltava para 35% das vezes quando o preso tinha um advogado ao seu lado.

Esse debate sobre sentenças em prisões israelenses ilustra bastante as vantagens e os riscos da jurimetria. Jurimetria não é uma panaceia e não substitui análises qualitativas. Ou seja, o conhecimento tradicional sobre como funciona a sistemática dos julgamentos é crucial. Foi assim que os últimos pesquisadores atualizaram as conclusões dos primeiros. Mas mesmo os estudos quantitativos revelaram informações e instigaram debates que seriam simplesmente inexistentes sem a análise estatística do direito. O debate acima nos permitiu ir além do “achismo” pela coleta e análise sistemática de dados.

O debate entre esses dois papers ilustra um dos  principais potenciais da jurimetria: oferecer ao advogado mais uma ferramenta para ir além de uma impressão baseada apenas na sua experiência individual

O Supremo Tribunal Federal e a aversão ao dissenso

O uso da jurimetria nas Ciências Jurídicas também tem aplicações interessantes no Brasil. Na sua tese de doutorada na FGV, o economista Felipe Lopes testa o peso do dissenso entre juízes tomando decisões colegiadas (Lopes 2019) . O dissenso por apresentar voto divergente implica carga de trabalho maior e custos reputacionais. Por isso, os juízes tendem a evitar o dissenso mesmo quando discordam da opinião predominante entre os pares.

Felipe testou essa hipótese olhando para os ministros do STF. Os ministros que votam após uma maioria ser formada sabem que seu voto não alterará o resultado da decisão colegiada. Felipe revisou decisões colegiadas do Supremo entre os anos de 1990 e 2015 e mostrou que ministros que votam depois da formação de uma maioria têm uma probabilidade muito menor de dar um voto divergente.

 

O futuro da jurimetria: integração com busca jurisprudencial

Uma tendência observada entre as aplicações comerciais de jurimetria é que há uma tendência para integrar o Legal Data Analytics com sistemas de buscas por precedentes. Essa integração já existe nos produtos da Blue J, Lex Machina e Ravel.

A ideia é que o profissional já receba insights estatísticos ao mesmo tempo em que faz a busca jurisprudencial. Existem inúmeras vantagens nessa integração. Primeiro, ela poupa tempo: você não precisa dividir sua atenção entre uma ferramenta de busca e outra de jurimetria. Segundo, ao integrar as duas soluções, o software pode sugerir quais as estatísticas às quais você deve estar atento dado o tema que está pesquisando. Por exemplo, ele pode mostrar quantas vezes aquele precedente é citado por outras sentenças ou dar uma análise estatística das decisões do magistrado relator daquele acórdão.

Essa foi exatamente o princípio de criação da  Plataforma Turivius: integrar pesquisa jurisprudencial com jurimetria. Assim, o nosso usuário pode naturalmente começar a se familiarizar com a jurimetria ao mesmo tempo que ele usa um sistema de busca inteligente por precedentes. Mais rápido, prático e menos custoso para o usuário. Caso queira entender melhor como funciona, é só clicar no link abaixo.

Nesse segundo artigo do nosso Guia da Jurimetria nós apresentamos as tecnologias que possibilitaram o “ressurgimento” da jurimetria nos últimos anos.  Você também viu os principais exemplos de jurimetria disponíveis no Brasil e no exterior e como os advogados dos principais escritórios americanos já estão usando o que lá é chamado de legal data analytics

No próximo artigo você descobrirá o que os principais advogados brasileiros pensam sobre a jurimetria e quantos deles já usam esse tipo de ferramenta. A Turivius conduziu uma survey exclusiva, em colaboração com estudantes da Escola de Direito da FGV-São Paulo e te apresentará os principaus resultados.

Por fim, e mais importante, você verá quais os cinco passos para começar a usar jurimetria hoje mesmo. 

 

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Direito e tecnologia: oportunidades para transformar o mundo jurídico

Independente da área jurídica na qual você atua ou planeja atuar, certamente já ouviu falar sobre a importante transformação digital pela qual o mercado está passando. A verdade é que o mundo inteiro vem se digitalizando, e não seria diferente com o Direito.

Não à toa, a pesquisa Legal Technology: looking past the hype, divulgada pela LexisNexis, aponta que, para 75% dos advogados, é essencial que seus escritórios usem tecnologia nos processos. Essas tecnologias devem repassar os benefícios alcançados à equipe, incluindo taxas mais baixas, melhor qualidade nas entregas e tempos de resposta menores. 

No artigo de hoje, falaremos sobre os principais desafios de adaptar a rotina jurídica à tecnologia. Falaremos, sobretudo, a respeito de algumas das inúmeras oportunidades que essa aliança pode trazer para os profissionais da área. 

Direito e tecnologia: desafios

Para termos uma noção concreta do que a união de direito e tecnologia representa, é importante termos em mente um desenho do cenário atual.

Ainda imersa em uma contínua transformação digital, nossa sociedade vem reformulando suas relações pessoais e profissionais, bem como redesenhando as formas de prestar serviços.

A seguir, abordamos quatro desafios que devem servir como motivadores para o desenvolvimento de um trabalho jurídico com o suporte da tecnologia.

 

O mundo VUCA

O primeiro fator nossa lista é, na verdade, um atributo da sociedade atual. 

A intensidade das transformações pelas quais o mundo passou ao longo dos últimos anos gerou, inclusive, um acrônimo, popularmente difundido no segmento dos negócios, para defini-lo: o mundo VUCA. 

Trata-se da abreviação de Volátil, Incerto (ou Uncertain), Complexo e Ambíguo, e resume as características mais marcantes do nosso ambiente cada vez mais “incontrolável”. 

Em artigo para a Forbes, o consultor estratégico Jeroen Kraaijenbrink traz uma breve explicação sobre cada um dos termos, o que nos ajuda a dimensionar o primeiro grande desafio de aliar direito e tecnologia: compreender o contexto. 

  • Volatilidade: para o autor, volatilidade é um termo ligado à velocidade de transformação na indústria, mercado ou no mundo em geral. Está associado a flutuações na demanda, turbulências constantes e no curto prazo para a execução de tarefas. 

 

  • Incerteza: redução da capacidade do mercado de prever o futuro. Com a aceleração das mudanças, o imprevisível e imponderável é acentuado. Podemos afirmar que a frequência de cisnes negros, ou seja, eventos imprevisíveis e impensáveis, também aumenta. A crise do novo coronavírus de 2020 é um grande exemplo aqui. 

 

  • Complexidade: montante cada vez maior de fatores que devem ser levados em conta para compreender contextos e tomar decisões. 

 

  • Ambiguidade: o conceito faz referência à dificuldade de interpretar claramente os fatos. Uma situação pode ser ambígua por falta ou excesso de informação, o que leva a conclusões contraditórias ou incompletas. 

 

Novos problemas, novas soluções

Por fim, o último desafio da união entre direito e tecnologia é encontrar as ferramentas certas para enfrentar os novos problemas originados no mundo atual (crimes cibernéticos, fraudes em sistemas tributários, vínculos empregatícios frágeis ou inexistentes, entre outros). 

O professor Jeremias Prassl, da Universidade de Oxford, em seu artigo para o relatório The Gig Economy, examina como o direito e a tecnologia podem ser usados juntos para resolver um grande número de problemas sociais e legais criados pelas novas plataformas.

Para o professor, é essencial que haja uma adaptação das leis em função dos novos problemas surgidos a partir da reformulação da sociedade trazida pela digitalização. Para ele, ainda, “a tecnologia existe justamente para que tais soluções sejam implementadas”. 

 

Direito e tecnologia: oportunidades

Conhecer os principais desafios de aliar direito e tecnologia no mundo atual serve, principalmente, como mola propulsora para encontrar oportunidades. 

Por serem ferramentas extremamente ágeis, fluídas e, muitas vezes, integradas, as tecnologias aplicadas ao Direito possibilitam ressignificar a forma de prestar serviços e encontrar resultados. 

A seguir, listamos (mais) algumas das oportunidades e benefícios de trabalhar direito e tecnologia de forma integrada. 

Trabalhar com equipes multidisciplinares

Um dos maiores equívocos de quem incorpora a tecnologia ao ambiente de trabalho é imaginar que esta é uma oportunidade para abrir mão da inteligência humana. 

Na verdade, o investimento em direito e tecnologia é potencializado se vier acompanhado da criação de uma equipe multidisciplinar, com especialistas em diversos segmentos jurídicos e administrativos. 

Com profissionais multifacetados, é possível conduzir casos com pontos de vista diferenciados. As discussões ficam mais ricas se pautadas em informações fornecidas, por exemplo, por uma ferramenta de tecnologia no direito especializada em inteligência de dados. 

Trabalhar remotamente

Outro benefício de unir direito e tecnologias da informação é a criação de uma rotina de trabalho flexível, com possibilidade de atuação remota. 

O portal Law.com, de informações jurídicas, conta que, depois da popularização do modelo de trabalho por startups do Vale do Silício, até mesmo as forças de trabalho tradicionais começaram a trabalhar remotamente. Diante dessa tendência, alguns escritórios de advocacia já começam a caminhar de acordo com o exemplo do Vale do Silício. Essa tendência foi fortemente acelerada em 2020 com a pandemia do novo coronavírus, que obrigou advogados/as a se adaptarem rapidamente ao trabalho remoto.

Equipamentos eletrônicos cada vez mais compactos (como tablets, celulares e laptops) e ferramentas digitais acessíveis de qualquer lugar permitem que advogados deixem o ambiente do escritório para fazer seu trabalho em casa ou mesmo em viagens. 

Tornar pesquisas mais simples e assertivas

Criar interface entre direito, tecnologia e inovação é abrir portas para utilizar todo o potencial dos novos recursos em prol de uma rotina de trabalho mais dinâmica e muito mais assertiva. 

Usando uma plataforma digital como a da Turivius, é possível integrar soluções de pesquisa jurisprudencial, jurimetria e gestão do conhecimento jurídico em uma só ferramenta. É uma forma de investir tempo naquilo que realmente importa: estudar teses e debates jurídicos,   encontrar soluções para atender os clientes da melhor forma possível e captar novos clientes.

Novas plataformas, softwares e sistemas de comunicação estão transformando a relação entre direito e tecnologia. Muitas empresas e estudantes da área já estão abraçando a transformação digital. 

É fundamental, entretanto, saber escolher, dentre as possibilidades disponíveis no mercado, aquelas que oferecem a base tecnológica adequada às suas necessidades enquanto profissional. 

Se você está em busca de uma introdução ao mundo jurídico digital, peça uma demonstração gratuita da plataforma Turivius e entenda como funciona nossa solução para melhorar a rotina do advogado. 

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Advogado do futuro: torne-se um com estas 5 dicas

A 4ª Revolução Industrial também impactará as profissões jurídicas. Segundo o Fórum Econômico Mundial, as novas tecnologias transformarão as Cortes, as Leis e a forma de entregar  serviços jurídicos. Portanto, você precisa se preparar para esse novo cenário para não se distanciar das tendências de mercado e deixar que outros ocupem seu espaço. Não se preocupe, é mais fácil e menos ameaçador do que você imagina. Estamos aqui para te ajudar nessa tarefa.

Nesse artigo você vai conhecer o chamado Modelo Delta para a advocacia do futuro, uma forma simples e eficiente de pensar as competências necessárias para o futuro da profissão, sugerido por estudiosos americanos. Também te daremos as  5 dicas indispensáveis para quem deseja se enquadrar no perfil exigido no futuro da advocacia e não perder o que há de inovação no mercado jurídico.

 

 

O Modelo Delta para a Advocacia do Futuro

Quais habilidades e competências um advogado deve dominar para ser bem sucedido no futuro da advocacia? A professora Alysson Carrel,  ex-Vice Decana de Direito e Tecnologia na Northwestern School of Law, em Chicago, criou uma abordagem simples para como pensar o futuro da profissão.

O Modelo Delta consiste em três áreas de competências que o advogado do futuro deve dominar:

  1. A Lei: expertise em práticas específicas do direito, alta capacidade de análise e argumentação jurídica;
  2. Negócios e Operações: entender os fundamentos de administração de negócios, gestão de projetos e análise de dados;
  3. Habilidades Interpessoais: ser capaz de gerir relacionamentos profissionais de forma harmônica, mentalidade empreendedora, excelente capacidade de comunicação

Obviamente, o direito do futuro continuará exigindo conhecimento profundo da Lei. Mas o advogado do futuro deve também entender o impacto da tecnologia nos seus clientes e na sua capacidade de entregar serviços jurídicos – reconhecendo o poder da ciência de dados, tecnologia e otimização de processos. 

Mas com o aumento do uso de tecnologias como machine learning, que conseguem processar e interpretar um volume gigantesco de informação, o futuro do direito também exigirá ir além de só conhecer lei e jurisprudência. O desenvolvimento  de habilidades como inteligência emocional, comunicação efetiva e habilidades interpessoais para trabalhar com seus clientes com eficácia, que já são importantes hoje, serão ainda mais fundamentais no futuro, segundo Carel. Afinal, é esse último grupo de habilidades que o diferencia de uma máquina. 

Como você vê, essas habilidades não são tão diferentes do que você já faz hoje. Mas será preciso eleva-las a um outro patamar. Agora vejamos como, com essas 5 dicas que vão te preparar o futuro da advocacia

Alyson Carel, da Northwestern Law School, em Chicago, explica o que é o Modelo Delta. Vídeo em inglês, sorry! Mas você pode clicar nas configurações do vídeo e adicionar a tradução automática do Google

1. Hard skills: Combinar o fundamental da advocacia com o uso de tecnologia

O advogado do futuro continuará precisando ter  habilidades técnicas básica da profissão, ou seja,  intimidade com a lei, suas aplicação e excepcional capacidade comunicação verbal. Mas o futuro da advocacia não se limitará a esse tipo de conhecimento.

Vivemos em um mundo em que terabytes de dados digitalizadas das cortes surgem todos os dias. É humanamente impossível acompanhar, interpretar e integrar esses terabytes de dados a sua rotina. E nem adianta querer passar essa tarefa para o Enzo, seu estagiário que entrou no escritório mês passado, ok? 

Para isso, você precisará aprender a utilizar as novas tecnologias que já estão disponíveis. Fique tranquilo, é mais fácil do que parece. 

Tecnologias de data analytics jurídico – que é um outro nome para jurimetria – e sistemas de buscas inteligentes serão ferramentas essenciais para o seu trabalho. Com a quantidade de novos dados gerados, as buscas tradicionais – por exemplo, pesquisa jurisprudencial nos sites dos tribunais – simplesmente não são eficientes o suficiente. 

Ferramentas que envolvam o uso de Inteligência Artificial  otimizando a captura,  gestão e compartilhamento das informações serão essenciais. Mais relevante ainda serão as plataformas que integram pesquisa inteligente com jurimetria. Com a explosão da quantidade de dados, você precisará de métodos estatísticos que te ajudem a entender esses dados, a gerar inteligência que agregue aos seus serviços.  

Pesquisa jurídica e tecnologia

Segundo Christopher O’Connor, gerente do Segmento de Marketing do blog LexisNexis UK, a habilidade de realizar pesquisas jurídicas com auxílio de tecnologia é vital.

Procure por softwares e plataformas que te auxiliem nessa tarefa e caibam no seu orçamento. Você verá que o retorno ao seu investimento, em termos de ganho de tempo e melhoria na qualidade dos seus serviços, vale muito a pena. Essa é exatamente a proposta de valor da Turivius.

Ainda em relação às habilidades básicas, uma boa oratória e escrita continuarão sendo indispensáveis. Afinal, a comunicação é a principal ferramenta do advogado, não só para fins de audiências e sustentações orais, como para atender e conquistas clientes. Mas o advogado do futuro precisa ir um pouco mais além e se aprofundar em conceitos diferentes, como o de design thinking aplicado ao ambiente jurídico, conforme apontaremos no tópico 3.

Conhecer bem seu perfil de cliente, suas dores e necessidades e desenvolver ou aprimorar seu produto faz parte do conceito de design thinking.

O advogado do futuro precisará dominar essas ferramentas. Essas habilidades técnicas, ou os novos hard skills jurídicos relacionados ao uso de tecnologia, farão parte, cada dia mais, da rotina no futuro da advocacia.

2.    Soft Skills: o que são e como desenvolvê-las?

Se você trabalha como um robô, será substituído por um” Christopher O’Connor, da LexisNexis. 

Para não trabalhar como um robô, você precisa desenvolver também os chamado soft skills. Essas são atributos pessoais que te permitem comunicar e se relacionar com outras pessoas de forma eficaz e harmônica. Atualmente são muito visados não só para o perfil do advogado, mas também para todas as demais profissões.

Características como empatia, resiliência, adaptabilidade, capacidade de comunicação, proatividade, dinamismo e otimismo frente às dificuldades são determinantes para o sucesso do advogado do futuro.

Por fim, cabe salientar que o advogado do futuro precisa desenvolver um mindset de solucionador de problemas. Ter um perfil analítico, empreendedor e comunicativo é essencial quando falamos em adaptação às mudanças da advocacia do futuro

3.     Legal Design e Visual Law

As técnicas de design thinking são hoje largamente usadas nas empresas de tecnologia e estão começando a entrar no setor jurídico.

Conhecida como Legal Design, seu objetivo central é tornar mais atrativo, funcional e acessível o negócio jurídico como um todo.

Pioneira na utilização dessa metodologia, a Universidade de Stanford criou o Legal Design Lab. Esse é um laboratório interdisciplinar dedicado a integrar conceitos de user-centric (colocar o cliente no centro do problema) com o uso da tecnologia no Direito, a fim de construir uma nova geração de produtos e serviços jurídicos e uma nova forma de entregar esses produtos.

Nesse contexto, destaca-se a ideia do Visual Law que nada mais é do colocar em prática essa acessibilidade proposta pelo Legal Design.

Por exemplo: você já leu um contrato no qual era parte e não entendeu muito bem suas obrigações? Ou existiam palavras que sequer tinha conhecimento do seu significado? Se você respondeu que sim, imagine então o seu cliente, que não tem formação jurídica.

Pois bem, a partir das ferramentas de Design Thinking e do conceito de Visual Law, esse contrato passaria a ser mais didático, com um vocabulário mais acessível, num formato mais intuitivo, com ícones representativos de cada tópico, com destaques do seriam as informações mais relevantes sem deixar de lado a fundamentação jurídica que o guia.

Veja, por exemplo, esse guia didático produzido pelo Stanford Legal Design Lab explicando com imagens um processo para contestar uma multa de trânsito no judiciário. São exemplos bem básicos, mas pode te dar ideia para ser mais criativo na sua comunicação.

E você, será que conseguiria explicar um contrato para um cliente usando um flowchart?

O Legal Design já está sendo introduzido no Brasil. Você pode ver um pouco do assunto nesse painel do Impact Lawtech, realizado em 2019

4.    O domínio da Lei Geral de Proteção de Dados

Que a Internet democratizou o acesso à informação, todo mundo sabe. Mas a propagação instantânea dos dados teve seus reflexos negativos, principalmente no que tange à preservação da intimidade e privacidade.

Inspirada na legislação vigente na Europa desde Maio de 2018, A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira, publicada em 14 de Agosto de 2018, prevê, dentre outras punições, multa de até 2% do lucro das empresas que desrespeitarem suas determinações.

A divulgação ou disseminação de dados pessoais deve atender às particularidades e preferências do indivíduo que os detém e não da pessoa, seja pessoa física ou jurídica, para quem ele os revela.

Garantir que ninguém seja exposto em um contexto de pulverização de dados é um desafio, mas também um dever de quem zela pela aplicabilidade da Lei.

A LGPD é um ótimo exemplo de uma das transformações na lei que o Fórum Econômico Mundial citou como consequência da 4ª Revolução Industrial. O advogado do futuro deve estar atento ao cumprimento deste regramento não só por parte dos seus clientes mas também no seu escritório.

5.     A Jurimetria na Advocacia do Futuro

Jurimetria é a aplicação de técnicas de análise quantitativa ao direito. O termo foi cunhado em 1949 pelo jurista americano Lee Loevinger, mas seu uso efetivo no direito só pode começar depois do crescimento do Big Data e da Inteligência artificial. A jurimetria será cada vez mais parte da rotina do advogado do futuro.  

A jurimetria complementa sua expertise e conhecimento tradicional com análise quantitativa rigorosa e te dá novas perspectiva em temas que você já domina bem. A jurimetria te poupa tempo pois com ela você consegue fazer análise de um grande volume de informações em poucos segundos. Com ela você também pode aumentar o faturamento do seu escritório, pois te ajudar a  atrair novos clientes e gera eficiência.

O advogado do futuro precisará incorporar esse tipo de análise em sua rotina profissional para se manter competitivo. Cada vez mais os seus clientes terão a expectativa que suas orientações jurídicas serão complementadas com análises quantitativas rigorosas.

Saiba tudo que você precisa sobre jurimetria no nosso Guia Completo da Jurimetria, onde discutimos o conceito de jurimetria, razões para usar, exemplos e aplicações disponíveis e muito mais. Veja também no canal no YouTube da Turivius a nossa série de vídeo-aulas sobre jurimetria, cujo primeiro vídeo está ao final deste artigo.

A Turivius é um exemplo de plataforma que concentra em uma única ferramenta pesquisa jurisprudencial inteligente, jurimetria e gestão do conhecimento jurídico. É uma tecnologia que te permite investir seu tempo no que realmente importa: estudar teses jurídicas novas e atender melhor o seu cliente. É uma aliada ideal para o advogado do futuro.

Por fim, se você quiser saber mais sobre direito e tecnologia não deixe de ler o posto Direito e Tecnologia: oportunidades para transformar o mundo jurídico.’